Sexta-feira, 4 de Maio de 2012
Sinistralidade elevada, porquê?

O artigo publicado no DN em 18 de Abril pp intitulado “Sinistralidade empobreceu o País” levou-me a apresentar este texto pois se constata que mais uma vez aparece este lamento, agora com números ainda mais crus que a sua ausência, mas continua a não ser este flagelo devidamente analisado e portanto a não se tomarem as medidas mais eficientes para a sua correção.


De facto há estradas e ruas mal desenhadas e/ou mal mantidas, sinalização deficiente ou inexistente, e por ventura mais alguns defeitos deste tipo, mas a maioria dos acidentes deve-se a erros humanos dos quais o mais corrente é a indisciplina dos condutores.


E por que razão há tantos condutores indisciplinados? E, já agora, só os condutores são  assim?


Vendo bem a principal causa da nossa crise atual foi a indisciplina generalizada dos políticos e de grande parte da população na condução da sua vida económica e financeira.


Então o que é isso da indisciplina?


É o inverso da disciplina e esta é o conjunto de regras que devem orientar o comportamento dos cidadãos. Há disciplina militar como há disciplina religiosa e nestes dois casos toda a gente tem consciência do que ela representa e porque ela existe.


Na vida em geral poderemos dizer que a disciplina, obviamente democrática pois em regimes ditatoriais é que tudo o que não é proibido é obrigatório, é a forma inteligente das pessoas conviverem harmoniosamente. Portanto nunca praticando atos que incomodem ou prejudiquem as outras.


Para isso há três condições básicas:

 

1ª que todos sejam educados, isto é, ensinados e treinados a cumprir estas normas


2ª que elas sejam cumpridas por todos os escalões da sociedade, até porque um dos fatores essenciais da educação é o exemplo dado por aqueles que ocupam os lugares mais proeminentes


3ª que haja enquadramentos propícios e sistemas de controle eficazes de forma a reforçar o esforço educativo e em último caso em punir os prevaricadores quaisquer que eles sejam.


Posto isto, a disciplina pode definir-se como a relação entre as normas que são cumpridas e as que existem no enquadramento legal.


Se forem todas cumpridas a disciplina será 1, se não forem este valor descerá até zero quando nada for respeitado.


Assim quando se faz uma lei, como por exemplo no que respeita o ruído ou a higiene e a segurança relativa ao comportamento de cães na via pública, mas nada se faz para que seja cumprida está imediatamente a criar-se um foco de indisciplina.


Também quando os municípios não criam estacionamentos suficientes e depois consentem o estacionamento em cima dos passeios onde de vez são multados, ou quando organismos oficiais estacionam as suas viaturas em locais proibidos, mais focos de indisciplina estão a ser criados.


Verifica-se assim que os cidadãos, desde a mais tenra idade são bombardeados com atos indisciplinadores nos bairros, nas escolas, na vida política, em todo o lado, e portanto dificilmente poderão comportar-se disciplinadamente.

 

E a indisciplina, como é o inverso da disciplina, cresce exponencialmente e quando esta desce para perto do zero, aquela atinge valores elevadíssimos e daí tantos acidentes.


Conclusão: se querem de facto diminuir a sinistralidade a sério, não é de vez em quando porem milhares de polícias nas estradas, mas antes resolverem capazmente a circulação e o estacionamento nas cidades e nas estradas, e convencerem-se todos os que têm responsabilidades a só fazerem leis que possam fazer cumprir e cumprirem todas as leis que já existem.


Lisboa,18 de Abril de 2012


Publicado no DN em 4 de Maio de 2012



publicado por JoseViana às 13:26
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Sexta-feira, 13 de Abril de 2012
E o desemprego ainda a subir…

Notícia quase diária: o número de desempregados continua a crescer.


Em grande parte por três razões:


1ª Nas últimas três décadas o Estado (Central e Autárquico) aumentou as suas despesas em pessoal e obras, com poucas ou nenhumas preocupações de sustentabilidade, e muitas eleitorais, criando dívidas incomportáveis e agora há que despedir quem está a mais e eliminar as obras que não contribuem para a riqueza do País.


2ª Os Governos e a Banca, desde a entrada na CE, incentivaram a população a gastar, não a investir em atividades produtivas ou na sua valorização pessoal, mas em consumo fazendo assim crescer o PIB e obviamente também as dívidas pessoais e nacionais, pois todo este crescimento foi à custa de crédito.


3ª Assim se criaram inúmeras empresas, principalmente intermediárias e não de produção, que de facto não tinham um mercado sustentável mas apenas temporário, e que portanto muitas delas não conseguirão sobreviver.


E qual será a solução?


Emigração não é solução geral mas apenas pessoal e de sobrevivência imediata.


Obviamente temos que não só aumentar a nossa produção, até também para reduzir as importações, mas aumentar o seu valor acrescentado para se poder melhorar o nível salarial e moralizar a organização do nosso sistema de trabalho uma vez que se verifica a necessidade de realizar tarefas como por exemplo a limpeza das matas, que ardem mais por não serem limpas, ou na agricultura onde se importam trabalhadores estrangeiros enquanto os nossos recebem subsídio de desemprego.


Por outro lado há que dinamizar o investimento privado definindo claramente o que se pode fazer e como proceder, sem precisar sempre da autorização discricionária de algum governante ou autarca. O que não dinamiza o investimento e convida a comportamentos menos corretos.


 Aliás já há alguns anos atrás alguém afirmava que se o Edison tivesse nascido em Portugal jamais conseguiria produzir lâmpadas, porque ainda estaria à espera de uma autorização.


O exemplo mais flagrante desta dificuldade verifica-se na náutica de recreio e no turismo com ela relacionado, onde há projetos que criariam alguns milhares de postos de trabalho mas que para se realizarem precisam que haja definição clara por parte das autoridades respetivas de forma a que os investidores interessados não continuem a ter a perspetiva de terem que esperar dez anos ou mais por uma decisão.


E o Sotavento Algarvio é um exemplo vivo deste tipo de situação.


Não posso deixar de chamar a atenção daqueles que se manifestam contra o desemprego, e com muita razão, pois só quem nunca passou por tal provação é que lhe não dá o devido valor, para também reivindicarem esta dinamização do investimento sem a qual não há criação de emprego e de riqueza repartida.


Tavira, 4 de Abril de 2012

 

Publicado no Postal em 13 d Abril de 2012



publicado por JoseViana às 16:51
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Segunda-feira, 9 de Abril de 2012
Como combater o desemprego

Notícia quase diária: o número de desempregados continua a crescer.

 

Em grande parte por quatro razões:

 

1ª Nas últimas três décadas o Estado (Central e Autárquico) aumentou as suas despesas em pessoal e obras, com poucas ou nenhumas preocupações de sustentabilidade, e muitas eleitorais, criando dívidas incomportáveis e agora há que despedir quem está a mais e deixar de fazer obras que não contribuem para a riqueza do País.

 

2ªAssim que aderimos à CE os nossos governos fizeram de nós “bons alunos” mas à custa de muito maus hábitos pois destruímos a marinha que restava, diminuímos a pesca e a agricultura, destruímos indústrias em nome de um futuro de serviços que não sabíamos o que seria, investimos em energias caras subsidiadas e nos transportes mais caros (rodoviários), em resumo aumentámos os gastos do Estado e os custos de produção dos privados, que devem ser, se os deixarem, a base da produção de riqueza.

 

3ª Os Governos e a Banca, desde a entrada na CE, incentivaram a população a gastar, não a investir em atividades produtivas ou na sua valorização pessoal, mas em consumo fazendo assim crescer o PIB e obviamente também as dívidas pessoais e nacionais,  pois todo este crescimento foi à custa de crédito.

 

4ª Assim se criaram inúmeras empresas, principalmente intermediárias e importadoras, não de produção, que de facto não tinham um mercado sustentável mas apenas temporário, e que portanto muitas delas não conseguirão sobreviver.

E ainda por cima vários países a começar pelos EUnidos resolveram aproveitar o neoliberalismo que tem assolado o nosso planeta com uma Dona Branca gigantesca que veio acrescentar à nossa crise estrutural interna mais uma dificuldade financeira externa.

 

E qual será a solução?

 

É claro, mas parece haver muita gente a não ter entendido ainda esta realidade, que não basta corrigir a exagerada dívida soberana, e que assim que isto se verifique podemos voltar ao que estava antes da crise eclodir.

 

Na verdade temos forçosamente que alterar profundamente a estrutura e a cultura vigentes mesmo que isso obrigue até a adaptar a própria Constituição, se alguns dos seus artigos se verificar serem contrários à sobrevivência do País.

 

Emigração não é solução geral mas apenas pessoal e de sobrevivência imediata, e que só quem nunca experimentou julga ser fácil e agradável.

 

Obviamente temos que, não só aumentar a nossa produção, e assim diminuir e se possível eliminar o desemprego, até para reduzir as importações, mas também aumentar o seu valor acrescentado para se poder melhorar o nível salarial e moralizar a organização do nosso sistema de trabalho, uma vez que se verifica a necessidade de realizar tarefas como por exemplo a limpeza das matas, que ardem mais por não serem limpas, ou na agricultura onde se importam trabalhadores estrangeiros enquanto os nossos recebem subsídio de desemprego.

 

Por outro lado há que dinamizar o investimento privado definindo claramente o que se pode fazer e como proceder, sem precisar sempre da autorização discricionária de algum governante ou autarca. O que não dinamiza o investimento e convida a comportamentos menos corretos.

 

 Aliás já há alguns anos atrás alguém afirmava que se Edison tivesse nascido em Portugal jamais conseguiria produzir lâmpadas, porque ainda estaria à espera de uma autorização.

 

Um exemplo flagrante desta dificuldade verifica-se na náutica de recreio e no turismo com ela relacionado, onde há projetos que criariam alguns milhares de postos de trabalho, mas que para se realizarem precisam que haja definição clara por parte das autoridades respetivas de forma a que os investidores interessados não continuem a ter a perspetiva de terem que esperar dez anos ou mais por uma decisão.


Não posso deixar de chamar a atenção daqueles que se manifestam contra o desemprego,  e com muita razão, pois só quem nunca passou por tal provação é que lhe não dá o devido valor, para também reivindicarem esta dinamização do investimento sem a qual não há criação de emprego e de riqueza repartida.

 

Lisboa, 6 de Abril de 2012

 

Publicado no DN em 9 de Abril de 2012



publicado por JoseViana às 11:47
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Quinta-feira, 5 de Abril de 2012
Greves e democracia

Algumas greves verificadas ultimamente levantam questões importantes para a vida dos cidadãos e para a própria democracia.

 

A greve foi um instrumento desenvolvido principalmente durante o século XIX para combater o desequilíbrio existente entre os proprietários das empresas e os seus trabalhadores, que se comprovou ser essencial para o aperfeiçoamento da justiça social e para o próprio desenvolvimento económico dos países que viviam em democracia.

 

Por outro lado convém recordar que em democracia os assuntos, que há para resolver, são tratados nos Órgãos de Soberania devidamente eleitos pelos cidadãos, que têm o poder de aprovar os programas de governo e caso não aprovem depois a sua realização, têm mecanismos na Constituição para fazer frente a estas situações incluindo a de, por meio de eleições, mudar o Parlamento e o Governo e assim alterar o rumo eventualmente indesejado.

 

Mas em Democracia não é possível em termos realistas haver unanimidade de opiniões e assim haverá sempre minorias que não estarão de acordo com as decisões do poder da maioria, mas podendo exprimir livremente dentro das normas correntes da boa educação e da disciplina as suas opiniões, até contribuindo assim para a formação da opinião pública essencial para o funcionamento eficiente da política nacional.

 

Portanto é evidente concluir-se ser uma greve contra as decisões dum empregador pelos seus trabalhadores, sem sombra de dúvida, um direito inalienável, porque o argumento do prejuízo causado por essa quebra no trabalho realizado sempre foi a arma essencial.

 

Mas uma greve convocada contra uma decisão do Poder Político eleito realizada na Assembleia da República, onde estão representados todos os partidos políticos, não corresponde minimamente ao conceito da greve trabalhista e passa a ser a transposição do confronto democrático parlamentar para o confronto nas ruas, como tem que ser muitas vezes em sistemas ditatoriais, porque não há outra possibilidade.

 

Ainda por cima com a agravante dos prejuízos serem para os cidadãos todos, e principalmente para os utentes atingidos, e a sua organização ser da responsabilidade de partidos com representação parlamentar.

Se toda a gente que discorda de decisões governamentais vier para a rua sempre que lhe apetecer, porque o seu partido não conseguiu ter influência onde ela deve ser tratada, então estaremos caídos em plena anarquia.

 

Curiosamente não assistimos a manifestações idênticas destas forças políticas quando foram cometidos os erros e os abusos de poder durante os cerca de vinte anos em que se forjou a atual crise nacional, além da crise internacional que também ajudou ao descalabro, mas que devia ter obrigado os responsáveis a maior atenção, eficiência e honestidade.

 

Conclusão: greves políticas em democracias podem ser legais, mas não são propriamente legítimas nem democráticas, mas apenas anárquicas, devendo por isso serem condenadas pelos cidadãos conscientes dos interesses próprios e do país, obviamente através do voto.

 

Lisboa, 22 de Março de 2012

 

Publicado no DN em 5 de Abril de 2012



publicado por JoseViana às 10:39
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Quinta-feira, 15 de Março de 2012
Água vs energia: um dilema ou uma tolice

O trabalho apresentado hoje no DN sobre “O estado do ambiente!” inclui um artigo sobre a barragem do Tua que me chamou a atenção para, mais uma vez, ser essencial analisar a questão que é: a gestão da água das barragens ser realizada pelos responsáveis pela energia em vez de o ser pelos responsáveis pela água.

 

Para começar vejamos o que se passa com essa água, o que é fácil pois ela vem da chuva que cai no nosso território.

 

Se nos dermos ao trabalho de analisar os registos da pluviosidade ao longo das últimas décadas pode concluir-se o seguinte:

1ºo volume de água anual é suficiente para as nossas necessidades de for devidamente capturada

2ºhá enorme irregularidade quer ao longo de cada ano quer ao longo dos anos

3ºhá também irregularidades do ponto de vista geográfico

 

Daqui se pode inferir que para garantir a segurança do abastecimento de água ao País terá que ser feita a sua gestão abrangendo períodos da ordem dos dez anos e nunca de dois ou três, e além disto ter mais albufeiras menores e interligadas de forma a diminuir os impactos ambientais provocados pelas grandes albufeiras e poder controlar mais eficazmente os riscos das cheias. Com a vantagem adicional de ter albufeiras de reserva alimentadas nos períodos de elevada pluviosidade sem custos de consumo de energia.

 

Muitas destas barragens serão propícias para a produção de energia e para a utilização na cobertura de pontas e aqui chegamos ao ponto crítico atrás levantado: quem deve ser responsável pela gestão da água?

 

A água é o bem mais importante para a vida em geral e para a humana em particular e a sua origem principal é a chuva.

 

A energia é essencial à vida de uma sociedade mas a sua produção é possível de várias fontes a saber: combustíveis (lenha, carvão, gás natural, petróleo), eólica, solar, geotérmica, ondas e marés, hídrica (barragens), nuclear, para focar apenas as principais.

 

Em Portugal quanto a combustíveis os mais importantes têm que ser importados e são produtores de CO2, as ondas e marés são insignificantes, a geotérmica situada nos Açores, e ficamos aqui apenas com a eólica, com a solar, com a hídrica e a nuclear (para a qual temos matéria prima).

 

Ora sendo a energia um fator essencial da competitividade de um país teria sido uma prática de gestão excelente pelos responsáveis portugueses privilegiarem as fontes que nos poupassem importações o que implicaria também cuidar do ordenamento do território e dos sistemas de transportes de forma a minimizar a necessidade de utilizar combustíveis.

 

Curiosamente combateu-se o nuclear com base em preconceitos e pretensos cuidados ambientais mas não temos os mesmos cuidados nem com as barragens nem com o ordenamento, e os resultados vão aparecendo com a dimensão conhecida.

 

Com a agravante de, se alguma vez faltar a tão essencial água, os atuais responsáveis pela sua gestão não poderem ser de facto responsabilizados porque o planeamento das barragens é feito por outros, cujo objetivo é outro.

 

Por isso o título se justifica: será um dilema real ou “apenas” mais uma tolice?

Lisboa, 20 de Fevereiro de 2012

 

Publicado no DN em 15 de Março de 2012




publicado por JoseViana às 14:22
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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
Que Estado queremos?

Para começar talvez fosse preferível o título ser “Que Estado podemos querer?”

 

Mas vamos analisar com um exemplo simplificado como se articula o Estado com a população, e depois logo se discutirá a resposta à pergunta do título.

 

Imaginemos um país com a seguinte distribuição da sua população:

Total  10 milhões

Menores de 19 anos  2 milhões

Maiores de 70 anos  2 milhões

Deficientes   0.5 milhões

Desempregados  0,5 milhões

Ativos  5 milhões, destes 700 000 são funcionários do Estado e 200 000 são empregados em empresas do Estado que prestam serviços a toda a população.

 

Todos estes ativos e os maiores de 70 pagam impostos como IVA, IRS, ISCombustíveis, etc e ainda os bilhetes ou os passes e as taxas relativas aos serviços recebidos como sejam, por exemplo, os transportes. No entanto alguns destes serviços têm que ser subsidiados de forma a que o seu custo seja compatível com a capacidade financeira de muitos utentes com salários baixos. Tal como acontece também com a Saúde.

 

Outra origem de fundos para o Estado são os impostos sobre as empresas como o IRC, os valores cobrados por concessões e outros, mas há ter atenção ao facto de esta ser uma zona de atividade propícia à fuga de impostos tanto maior quanto mais altos eles forem e será porventura nesta área que se verificam as elevadas quantias passadas para “off-shores”.

 

O Estado tem que pagar os custos operacionais e de investimento relativos à segurança nacional, como são as Forças Armadas, a PSP e a GNR, os Bombeiros, à Justiça, à Educação e à Cultura,  ao funcionamento dos restantes ministérios e ao pagamento das pensões justas, mas tudo isto com a preocupação da máxima eficiência, isto é, insisto, sem custos parasitas.

 

Os fornecimentos essenciais como a água, a eletricidade, as comunicações deverão ser pagos na base de utilizador –pagador, serem competitivos, e pesarem pouco ou nada nas despesas do Estado e serem otimizadas para não pesarem demais nas despesas dos cidadãos.

Isto significa, de forma aproximada, que cerca de 4,1 milhões de portugueses têm que criar riqueza suficiente todos os anos para pagarem de impostos ao Estado uma importância que chegue para este pagar todos estes encargos mais as dívidas do passado.

 

Por outro lado temos que recordar que o famigerado PIB-produto interno bruto, não é só por si sinal de riqueza pois esta só existe se a nossa produção total for maior que o nosso consumo.

E como isto não acontece desde há muitos anos, diga-se de passagem, perante a passividade de quase todos os cérebros brilhantes que nos têm governado e dado palpites, chegámos agora a esta situação de aflição económico-financeira.

 

Mas para produzir mais temos que ser competitivos e para isso não podemos pagar impostos mais altos que os nossos concorrentes nem pagar os consumos essenciais mais caros. A ideia de que só se é competitivo com salários baixos é totalmente errada, pois a competitividade depende essencialmente mais da qualidade dos gestores e dos trabalhadores, e só nos casos de produtos de baixo valor acrescentado o salário baixo é relevante.

Assim só há um caminho a seguir: reduzir ao mínimo indispensável todos os custos que correspondam a trabalho não produtivo a começar aos mais altos níveis (estou a pensar nos custos da Assembleia da República, da Presidência da República, dos Gabinetes dos Ministros, dos membros de conselhos de gestão de empresas e de Fundações  e outras mais).

 

Além destes aos mais altos níveis, temos todos os que trabalham no setor público e auferem salários que não correspondem ao que produzem obrigando assim a aumentar os impostos e/ou a dívida, e ainda há a acrescentar a esta lista as reformas exageradas e injustas que foram sendo atribuídas mas que não podem continuara a pesar no deficit nacional em face das necessidades de ajudar os menos beneficiados.

 

É claro que todos estes excessos correspondem a direitos adquiridos, tenham sido eles por ações corporativas ou por simples compadrio político ou pessoal, mas se queremos ser solidários e justos há que eliminá-los.

Não só por ser uma poupança grande mas tanto ou mais importante como exemplo que ajude uns milhões da população, que têm apenas algumas magras centenas de euros por mês para tentarem sobreviver, a compreender a necessidade deste aperto que se deseja curto e produtivo.

Obviamente esta redução do pessoal afeto ao Estado vai aumentar o número de desempregados pelo que há que encontrar soluções práticas e rápidas para criar postos de trabalho que eles possam ocupar o que implica grande esforço de adaptação que, aliás, é condição indispensável para garantir a sobrevivência, pois é disso que estamos todos a tratar.

 

Aliás esta moralidade deve atingir também todas as empresas do Estado onde se verificam situações intoleráveis de desigualdade e de abuso de poder corporativo com manifesto prejuízo para as contas do Estado e para a vida dos seus utentes.

 

Na criação de postos de trabalho tem que se ter a noção de que o trabalho é um direito mas também é um dever e que se se quiser garantir o pleno emprego se corre o risco de perder alguma liberdade como foi exemplo países comunistas.

 

É urgente, urgentíssimo criar estruturas que permitam integrar os jovens que vão acabando os estudos, que seria desejável os preparassem melhor para a vida, de forma a evitar caírem na vadiagem e até na marginalidade dando-lhes ocupação útil e preparação prática. Só na agricultura, que tanto precisa de ser recuperada, e na recuperação das zonas urbanas e no repovoamento do interior desertificado há lugar para muitos milhares.

 

Mas voltemos ao  Estado que queremos.

Se ele continuar a ser pesado sem resolver estas problemas atrás indicados é a bancarrota garantida.

 

Se a austeridade for correta, que ainda está longe de ser como vimos, se forem criadas as condições de competitividade indispensáveis e conforme formos cumprindo as metas fixadas forem adaptados os impostos, diminuindo os tetos para aumentar a totalidade das receitas, que é o objetivo essencial, poderemos desenvolver mais empresas privadas que absorvam os excessos saídos do Estado e assim não só sairmos da crise mas ganharmos balanço para termos uma vida sustentada sem dependências de credores ….

 

Resumindo e concluindo:

 

Queremos um Estado que funcione eficientemente, com uma estrutura menos cara, isto é, sem custos parasitas, o que aliás está incluído no memorando assinado com a “Troika” mas cuja indispensável reforma não só ainda mal foi iniciada, como já está a ser prejudicada com as nomeações recentemente decididas.

 

Queremos um Estado que tenha os principais responsáveis pelos Órgãos de Soberania,  pelas Autarquias e pelas Organizações Corporativas dando o exemplo de austeridade tanto a nível pessoal como a nível das instituições, não só porque assim se pouparão muitos milhões de euros mas também porque o seu exemplo ajudará a população  a suportar os sacrifícios e a colaborar melhor.

 

Lisboa, 1 de Fevereiro de 2012

 

Publicado no DN em 27 de Fevereiro de 2012



publicado por JoseViana às 13:10
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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012
Sotavento adiado-I Caso de Tavira

Desde há vários anos que venho defendendo a necessidade e o interesse no desenvolvimento náutico do país em geral e do Sotavento em particular, com resultados práticos quase nulos.

 

O primeiro município que estudei foi o de Tavira pela razão simples de ter raízes familiares nesta cidade, passar todo o tempo disponível aqui e até ter sido durante quase dez anos nela residente.

 

Em 2004 apresentei no congresso do Racal uma comunicação sobre o desenvolvimento do Sotavento onde sugeri o estabelecimento de cerca dez mil postos de amarração, dos quais 2000 seriam em Tavira.

 

Como é sabido a maior riqueza potencial desta cidade é o conjunto das atividades marítimas que é possível praticar aqui, quase todas elas passíveis de usufruto todo o ano, com excepção do sol e praia que não chega a dois meses de prática, do golfe e de atividades  culturais e desportivas ligadas ao património e à serra, e ainda da capacidade muito mal aproveitada da produção agrícola aliás essencial para contribuir para a maximização do valor acrescentado do produto turístico.

 

Durante muito anos os nossos responsáveis davam a ideia de que só conheciam o sol  e praia, esquecendo-se de que o turismo no Algarve se iniciou exatamente ao contrário, quando os ingleses vinham passar os meses de Outubro a Março e não no verão, esquecimento este que levou ao desenvolvimento de estruturas imobiliárias de baixo nível de qualidade e a taxas de sazonalidade elevadas.

 

A prática do golfe veio diminuir esta anomalia mas para diminui-la ainda mais, ou até eliminá-la, a única  solução era e é o desenvolvimento das atividades náuticas, o que não exclui as outras atrás indicadas.

 

Assim foram apresentadas aos autarcas tavirenses várias sugestões concretas e realizáveis desde há quase duas décadas.

 

Durante a gestão do Sr Eng Macário Correia, seguindo a política anti-mar do seu partido PSD nessa época, nunca se conseguiu qualquer iniciativa neste capítulo.

 

Durante as últimas eleições dei todo o apoio que pude ao candidato do PS, Dr. Jorge Botelho, tal como tinha dado ao seu antecessor eng Fialho Anastácio nas anteriores, porque ele me mostrou interesse real nesta melhoria essencial para combater o desemprego e fortalecer a vida económica da autarquia ou seja dos Tavirenses.

 

Para concretizar estas ideias foram apresentados publicamente os ante projetos  que garantiriam a Tavira uma redução relevante da taxa de sazonalidade, a criação de postos de trabalho e uma contribuição efetiva para a educação náutica da população em geral e da juventude em particular, o que é vital para se obter a máxima qualidade do produto turístico náutico.

 

Mas nada aconteceu até agora. Todas as tentativas para colaborar com o atual Presidente da Câmara de Tavira tem sido frustradas e não se pode dizer mal recebidas, porque nem sequer o foram de todo.

 

Dois anos já se passaram. O desemprego continua a subir. Quanto a iniciativas concretas para inverter este situação: nada.

As recomendações expressas pela EU ainda há alguns dias em Lisboa são no sentido do desenvolvimento náutico, certamente muito direcionadas para Portugal pois é de facto o país europeu com maior atraso nesta matéria mas até agora nem o Governo nem as Autarquias mais apropriadas para este desenvolvimento têm mostrado interesse e iniciativas concretas.

E após 12 anos de anti mar parecia que os votos de mudança foram claros. Mas nada mudou, pelo menos até agora. Porquê?

Não é de certo por falta de dinheiro, porque a maior fatia de investimento deverá ser realizada por privados e a que cabe à Autarquia não só é reduzida mas segundo foi anunciado na reunião de Lisboa terá ajudas comunitárias, se houver apresentação de projetos.

 

Então o que se passa com a Autarquia de Tavira?

 

Entretanto a cidade definha, os jovens têm que procurar trabalho fora, a reorganização indispensável da Autarquia com vista a reduzir custos e aumentar a competitividade  dos Tavirenses é adiada e a população e os políticos locais entretêm-se a dizer mal da “troika” mas nada fazem para contribuir para alterar a situação que esteve em grande  parte na origem desta crise.

 

É tempo para que os responsáveis pelos destinos da Autarquia mostrem que são capazes de mudar o rumo em que vivemos nestes últimos vinte anos e transformem esta maravilhosa cidade num local desenvolvido e sustentado onde se elimine o desemprego e a emigração dos jovens.

 

Tavira, 13 de Dezembro de 2011

 

Publicado no Postal do Algarve em 3 de Fevereiro de 2012



publicado por JoseViana às 13:22
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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
Autarquias: menos ou melhores?

No jornal de 2 de Janeiro pp foi publicado no DN um artigo interessante sobre a redução de autarquias.

 

Em Julho pp também eu próprio escrevi no DN um artigo sobre as autarquias e os governos civis.

 

Julgo ser agora oportuno voltar ao tema da reorganização das autarquias pois parece haver opiniões favoráveis à sua redução embora o artigo acima indicado seja no sentido de chamar a atenção para os riscos destes cortes.

 

Correndo o risco de repetir algumas afirmações que fiz em Julho convém no entanto recordar o facto de quase todas, para não dizer todas, não terem dimensão crítica para fazer um PDM correto e custarem aos cidadãos que as sustentam bastante mais do que é justo e conveniente, pois todo o custo a mais equivale a redução da competitividade da população, e portanto do país.

 

O que escrevi em Julho já apontava para uma estratégia para diminuir os custos autárquicos mas como o seu objetivo era principalmente a ligação entre municípios e governos civis, não aprofundei como tratar as autarquias quanto ao seu número.

 

Isto é: criar mais, eliminar algumas, ou melhorar a sua eficiência?

 

1º É preciso não esquecer que há dois objetivos algo contraditórios: as vantagens do trabalho de gestão em proximidade das populações que as autarquias proporcionam, que aponta para não reduzir o seu número, e a necessidade de reduzir drasticamente os seus custos de funcionamento em relação à riqueza de facto criada, de forma a eliminar todos os focos de parasitismo que proliferaram nestas últimas décadas.

 

2º A eliminação realizada pelo governo central é um erro de gestão evitável e desgastante, e, tendo em conta o que apresentei em Julho, deve ser tratado e resolvido, no seu aspeto essencial que é o da redução dos custos, pelas próprias autarquias, associando-se e reorganizando-se.

 

Do ponto de vista de eficiência de gestão o que parece mais correto é o Governo deixar a responsabilidade da reorganização municipal, incluindo as juntas de freguesia, aos municípios, embora controlando os seus orçamentos e fornecendo a toda a população a informação completa referente à gestão da sua autarquia para lhe permitir controlar eficazmente o trabalho realizado por aqueles que elegeu, ou melhor que foram eleitos, pois quem não votou neles também tem direito a controlá-los.

 

  Publicada no DN em 19 de Janeiro de 2012



publicado por JoseViana às 16:45
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Domingo, 15 de Janeiro de 2012
Portos e transportes marítimos: do diagnóstico para os resultados

 

Tudo que havia para dizer sobre a Marinha Portuguesa, o seu estado actual, as consequências do seu enfraquecimento e como evitar esse naufrágio nacional, já aconteceu há bastante tempo e ficou agora ainda mais claro.

 

Parafraseando uma vez mais Almada Negreiros só falta mesmo é fazer alguma coisa a sério.

 

Nesta comunicação vou ser muito sintético, até porque ao  longo das três últimas décadas tive ocasião de tratar estes assuntos, muitas vezes aqui na Academia e quem estiver interessado em verificar a antiguidade de alguns temas ou o seu eventual aprofundamento poderá fazê-lo consultando um CD existente nas Bibliotecas da Academia, da Sociedade de Geografia e em breve também na da Marinha.

 

Não têm faltado conferências proferidas por pessoas altamente cotadas em fóruns da maior relevância no plano institucional português, que trataram estes assuntos muito bem, mas resultados, onde estão eles?

 

Porque para haver resultados é preciso haver decisões e acções concretas, isto é, fazer algo que não seja apenas falar ou escrever.

Fazer, com certeza, mas o quê e por quem e quando?

 

Trata-se não só de ressuscitar uma actividade mas também e mais ainda de incutir na população uma atitude diametralmente oposta à que vem vigorando no nosso país desde há quase quarenta anos, talvez ainda com maior intensidade  que nos quatrocentos anteriores.

 

E que implica vontade política e vontade dos cidadãos, em particular dos que produzem, seja qual for o grau hierárquico que ocupem, e dos que investem.

 

Importa recordar que vontade política em ditadura é muito simples de definir e quando ela não contempla determinado objectivo é escusado argumentar, até por ser proibida tal possibilidade.

 

Se esse objectivo for decidido, então apenas há que escolher quem o realizará.

 

O exemplo mais claro disto foi o célebre despacho 100 do então Comandante Américo Tomaz que permitiu Portugal voltar a ter Marinha como já não tinha há quase século e meio. Mas eram outros tempos e foi naturalmente a única solução para a crise em que se estava, e com resultados altamente positivos.

 

Já em democracia e nas circunstâncias actuais de não termos mais qualquer  império colonial,  as coisas são mais complicadas pois o poder democrático depende das eleições e se os eleitores estiverem habituados a facilidades e a habilidades,  como aconteceu nos últimos quinze anos, que os tornem pouco motivados para o trabalho e para o risco, dificilmente os políticos conseguem poder para processar alterações profundas nas atitudes dos cidadãos que, a curto prazo, parecem poder prejudicá-los.

 

A menos que haja uma crise grave e que tenham consciência dela.

 

Comecemos pois por “o quê”:

 

1º -  Que Marinha Mercante e o que ela exige

 

O mercado actual da Marinha Mercante, ou Marinha de Comércio, é global pois já não temos tráfegos protegidos e o movimento das nossas importações e exportações é pequeno e muito diversificado. Temos pois ao nosso alcance vários milhões de toneladas anuais de mercadorias “bastando” sermos competitivos para podermos participar nesse bolo gigantesco onde aliás tanto, primeiro a Nacional, como depois a Insulana estavam a penetrar em 1974. Seja no tráfego costeiro europeu, ou no internacional em geral sem esquecer a possibilidade de serem definidos transportes estratégicos que até os mais acérrimos defensores do liberalismo como são os americanos praticam sem qualquer hesitação quando estão em jogo interesses vitais do país.

 

Além disto e de vários nichos de mercado de que não é oportuno falar aqui, há o dos navios de cruzeiros que iniciou o seu desenvolvimento nos finais da década de 60, início da de 70, e que  os armadores portugueses não se aperceberam por não terem tomado atempadamente consciência da importância crescente do turismo na economia nacional. Como já tive ocasião de aqui relatar só o Funchal foi transformado em vez de ser abatido porque o Presidente Américo Tomaz a isso se opôs . Julgo ainda haver oportunidades neste sector, mas as tentativas para convencer alguns grupos hoteleiros a compreender que é uma extensão lógica da actividade hoteleira corrente nunca tiveram qualquer êxito. O que está dentro das tradições empresariais portuguesas pois não se pode, em abono da verdade, acusar apenas o poder político de estar de costas para o Mar porque os privados têm feito exactamente  o mesmo.

 

Para que haja Marinha Mercante, e por muito lapaliciana que pareça ser a afirmação seguinte, é preciso haver empresas de navegação motivadas e competitivas. Para isto ser possível  é indispensável existir um enquadramento legal e operacional que permita essas empresas operarem de forma a que a bandeira portuguesa seja muito conveniente sem ser de conveniência, o que exige por exemplo o registo de aquisições e abates ser imediato e sem qualquer necessidade de autorização, e não como a carta de marinheiro ou de condução de ligeiros que levam meses a ser tratadas, os assuntos jurídicos terem tratamento como em Londres ou outras praças onde um arresto se pode resolver em horas e não em meses, os assuntos relativos a tripulações idem e por aí fora, até á realização de contratos e à legalização das próprias empresas passando  por questões fiscais, tudo isto dentro dos condicionamentos  europeus, que são muitos, mas não impedem países como a Dinamarca de serem grandes potências marítimas.

 

Não cabe no âmbito desta apresentação pormenorizar todo este sistema de enquadramento mas já há muito trabalho feito, em particular na Secção de Transportes da Sociedade de Geografia e há  mais pessoas muito bem preparadas que em poucos meses tornam  possível ter este trabalho pronto.

 

Aqui convém recordar algo que já tive ocasião de tratar em comunicações anteriores e que tem a ver com  a falta de empresários nacionais interessados neste sector. É uma questão que já é velha de pelo menos quase três séculos: quando o Marquês de Pombal quis industrializar os País teve que ir buscar ao estrangeiro os que não encontrava cá.

 

 

Agora a solução será diferente e por ventura mais fácil: basta considerar como empresa portuguesa aquela cujos sócios sejam residentes em Portugal, provavelmente com alguma restrição relativa a serem europeus, se for caso disso. É aquilo que em tempos aqui  apresentei como o residencialismo.

 

2º  - Que Marinha de Recreio e o que ela exige

 

De acordo com um estudo realizado pela FIN ( Federation des Industries Nautiques ) baseado no período 1977 a 2002 a Marinha de Recreio mundial cresceu, em média, 7% anualmente, sendo a parte relativa à vela de 12% contra 6.4% relativa à motorizada. A totalidade de barcos produzidos em 1977 foi 6175 unidades e em 2002 atingiu 8708 unidades mas o problema maior continua a ser  a dos postos de atracação que só em França atingem o valor, insuficiente, de 226 000 lugares.

 

Também tem interesse recordar um estudo realizado na Comunidade Europeia indicando ser a Marinha de Recreio responsável pelo aparecimento de mais de 180 novas profissões ao longo destes últimos anos.

 

A costa portuguesa é aproximadamente metade da francesa mas o número total de postos de atracação aqui existentes é uma percentagem exígua da francesa e  da que é possível e exigível, tanto mais que grande parte, senão mesmo a totalidade poderá ser realizada por investidores privados libertando assim o Estado para outros objectivos que só ele pode e deve realizar.

 

Como exemplos apenas apresentarei, muito sinteticamente é claro, os casos de Lisboa e do Sotavento Algarvio: no primeiro a capacidade prevista para o estuário do Tejo foi estimada em 1982 em cerca de 20 000 e no segundo a previsão realizada recentemente aponta para cerca de 5000 sem incluir Faro. Recordo-me de um projecto para a zona que vai de Algés até à Gibalta apresentado há cerca de vinte anos, à então AGPL, para se construir uma marina para perto de 2000 postos de atracação mas que esta Administração achou que poderia ser aceitável mas que poderia haver ideia melhor, pelo que lançou um concurso tão bem feito que ficou deserto e agora está lá o que se vê. Também em 1998 se propôs à Câmara Municipal do Barreiro, durante uma comemoração relativa ao papel desta cidade nos Descobrimentos ali  realizada por esta Academia, o aproveitamento da bacia do Coina para instalar um porto de recreio para 3 a 4000 postos de atracação e assim tornar aquela cidade no mais importante centro  de náutica de recreio nacional e criando numerosos postos de trabalho relativos às muitas actividades induzidas pela existência daquela infra-estrutura.

Nada aconteceu.

 

E agora , quando finalmente Portugal redescobre a existência entre Lisboa e Cascais de uma das melhores zonas para a prática de regatas de vela do Mundo, mas foi preciso haver como sempre uma opinião estrangeira, vê-se finalmente desenhar-se algum interesse por este sector mas não o suficiente para imediatamente se dar corpo a todas as iniciativas que poderiam e deveriam já ter sido realizadas e que serão sempre rentáveis haja ou não a taça da América aqui sediada.

Mais ainda porque a única razão que poderá levar os decisores suíços  a não optarem por Portugal poderá ser a de não termos aqui infra-estruturas  náuticas para acolher os milhares de  veleiros que, tal como aconteceu na Nova Zelândia recentemente, querem assistir a este acontecimento maior da vela mundial.

 

As dificuldades de decisão que existem neste sector derivam da dispersão dos centros de        

decisão por vários Ministérios entre eles o do Ambiente, em que a prática vem mostrando ter como norma de comportamento: “nada se autoriza tudo se consente”, e o que regula os Portos onde as prioridades não têm apontado para este sector, dando preferência a restaurantes, lojas de automóveis e outras actividades pouco náuticas, além de edifícios de escritórios que podiam estar na avenida Elias Garcia ou em qualquer outra do centro da cidade.

 

Enquanto a maior parte das nossas  ONGs  interessadas na defesa do ambiente mostram muito mais actividade em relação a alguns pássaros ou outros animais do que aos milhões de portugueses que cá vivem.

Também aqui há que rever os enquadramentos de forma a haver melhor operacionalidade burocrática e fiscalização mais efectiva de forma a evitar, pelo menos, a indisciplina e os riscos de acidentes.

 

3º  - Que portos e o que eles exigem

 

Sobre este tema prefiro nada dizer para além do que já foi dito durante os painéis realizados em Junho passado. A notícia dada pelos media de que tinha sido encomendado um estudo à empresa consultora espanhola  que fez o mesmo estudo para Espanha, para mim , elimina a possibilidade e o interesse em tratar agora esta tema.

 

E agora, por quem e quando?

 

Posto o que atrás se disse  e, como parece haver vontade política, o que até agora não se verificou, antes pelo contrário houve Governos que se encarniçaram no ataque a quem queria que Portugal tivesse Marinha, vamos sugerir sejam tomadas decisões que permitam rapidamente mudar o rumo que tem vindo a ser seguido desde há quase 30 anos.

 

Embora eu próprio, e aqui mesmo, tenha, já lá vão alguns anos, apresentado várias notas sobre este tema, julgo no entanto mais pertinente e eficaz referir o relatório, recentemente elaborado por encomenda do Governo ao McKinsey Global Institute, em que sobressaem nas causas das dificuldades da competitividade nacional os procedimentos praticados pelos serviços do Estado e que são obviamente da responsabilidade dos Governos todos destes mesmos últimos 30 anos. É claro que o actual não sendo responsável pelos erros dos anteriores é o único que pode agora aplicar as correcções necessárias.

 

Portanto deverá, imediatamente, ser nomeado um responsável por um grupo de trabalho, para cada um dos temas aqui tratados, constituído por pessoas conhecedoras dos problemas focados e com provas dadas nestas actividades e principalmente das soluções  apresentadas anteriormente,  obviamente  integrados na Comissão Estratégica dos Oceanos, para em prazo muito curto a ficar claramente definido, apresentar todos o diplomas e decisões a tomar pelo Executivo para o mais rapidamente possível se alterar o rumo de colisão em que  vamos navegando.

Porque são dois temas que se podem começar a tratar já, sem haver o perigo de porem em cheque seja qual for a definição estratégica que será definida em 2004 e com a vantagem de contribuírem para criar rapidamente muitos postos de trabalho e darem uma nota de optimismo aos portugueses ultimamente tão causticados por más notícias e desastres, mesmo tendo em conta os exageros e as distorções dos media nacionais e estrangeiros.

 

Além do efeito político que representa haver agora investimentos de grande porte quando a Ministra das Finanças não tem possibilidades de aumentar o investimento público.

Diz a voz do povo que o óptimo é inimigo do bom e temo que, ao se pretender elaborar uma estratégia abrangendo tantas actividades, se atrasem escusadamente aquelas que já sabemos como desenvolver e que cujo atraso pode por em perigo a decisão favorável da Taça da América.

 

Como já vimos, mas convém insistir, a quase totalidade do  investimento necessário é privado, pois já vai sendo tempo para que se torne possível ser investidor em Portugal sem que o Estado tenha que pagar os lucros aos investidores como foi moda alguns anos atrás, pelo que não é preciso esperar pela melhoria das finanças públicas mas  é forçoso acelerar, para as  melhorar.

 

Vós, ou pelo menos a maioria de vós, que sabeis melhor do que quaisquer outros a arte e os preceitos correctos da navegação , compreendeis a semelhança do nosso País com um navio em rota de colisão e em que o seu Comando vai adiando a aplicação de soluções, elaborando mais estudos e esquecendo estudos já feitos, em vez de tomar as decisões certas, como disse Peter Drucker, poucas mas boas.

 

E também  podeis prever o naufrágio fatal que se seguirá se tal  procedimento não for imediatamente iniciado como foi apresentado, de forma a corrigir  o rumo errado em que navegamos há tempo demais.

 

Academia de Marinha, 23 de Outubro de 2003

Simpósio “O Mar no futuro de Portugal”

 



publicado por JoseViana às 17:01
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Portos e Transportes Marítimos

Comunicação apresentada na Academia de Marinha, em 17 de Junho de 2003,

 

 

Antes de entrar no tema da minha participação neste painel quero pedir  a vossa atenção para uma nota prévia: dados os objectivos desta série de painéis  e o facto de os assuntos aqui tratados já terem vindo a ser abordados desde há largos anos vou concentrar a minha comunicação em alguns pontos essenciais que facilitem o seu desenvolvimento dentro dos objectivos deste ciclo de painéis.

 

1º - Portos / Transportes marítimos


Em primeiro lugar interessa explicar porque razão se apresentam os portos

separadamente dos transportes marítimos ao contrário do que aconteceu entre nós nestes últimos anos quanto à sua dependência governamental consubstanciada no Instituto Marítimo-Portuário.

 

Até 1974 os assuntos portuários eram tratados pela Direcção Geral dos Portos, dependente normalmente do Ministério das Obras Públicas enquanto as Marinhas Mercante, da Pesca e de Recreio estavam dependentes da Armada.

 

Na realidade um país pode ter vários portos e estes serem de elevada qualidade e ter uma Marinha fraca, como ter uma Marinha forte e ter portos sem expressão internacional.

 

São duas realidades ligadas mas não obrigatoriamente interdependentes, pois o relacionamento com os vários  intervenientes é diferente como muitos destes também o são.

 

Ora um porto é um interface do Mar, isto é, das actividades ligadas ao Mar, com todas as actividades situadas no que se costuma chamar o seu hinterland.

 

Por outro lado a Marinha  - em sentido lato – engloba um variado número  de actividades que ultrapassam largamente os aspectos relacionados com os transportes e com a economia, pois constituem um conjunto de actividades estruturantes particularmente importantes para países como Portugal onde se tornaram essenciais para garantir a sua independência e que foram as bases para poder ter sido o iniciador da globalização e que, quanto aos transportes marítimos, pode até ser muito desenvolvida sem todavia existirem portos nacionais de grande dimensão. E isto porque a sua actividade se exerce em tráfegos internacionais como acontece com a Dinamarca, a Noruega, a Grécia, e outros.

 

Em 74, após uma revolução caracterizada como a maioria de todas as anteriores, com excepção da de 1383, i.e, mais perdida por quem detinha o poder que ganha por quem a iniciou, surgiu um complexo a nível nacional, com origens curiosas, de que Marinha significava colónias logo colonialismo e este implicava fascismo, logo actividade altamente pecaminosa.

 

Assim passámos instantaneamente de um Estado em que havia unidade de gestão da Marinha como actividade estruturante essencial, para outro, em que foi desmembrada e entregue, a parte civil, a gestores, quase todos, tecnocratas com visão restrita, poucos conhecimentos e muitos preconceitos e sem haver qualquer estratégia nacional onde se enquadrasse.

 

O resultado está à vista: o afundamento patente da Marinha portuguesa em todos sectores que a compõem.

 

Esta casa – a Armada – é o último  reduto para a sobrevivência da Marinha Portuguesa como já tive ocasião de, aqui mesmo, o afirmar mais de uma vez.

 

2º - Os portos nacionais


Os portos são, pois, na sua essência os sistemas de interface mar-terra que deverão permitir operar uma gama bastante vasta de actividades praticamente todas de carácter estruturante em particular quando se trata de um país de orientação essencialmente marítima como foi Portugal até há alguns anos atrás.

 

As actividades mais importantes a praticar nos portos são assim: entrada e saída de mercadorias e passageiros através de navios, pesca empresarial  e desportiva, navegação de recreio desportiva e de turismo, instalações de construção e reparação naval e  de segurança (militares, salvamento, vigilância, soberania, etc.) e ainda as actividades industriais/comerciais que para serem competitivas a nível global devam aí estar situadas.

 

As características dos portos exigidas pelas várias actividades são naturalmente mais diferentes em dimensão que em natureza, pois em todas elas há três condições  essenciais: acesso ao mar, acesso ao hinterland, terraplenos para estabelecer o inter face eficazmente.

 

Como a maior parte da economia de um país depende da competitividade dos seus portos para conseguir exportar o que precisa vender e importar o que precisa consumir  pelo mais baixo custo, em primeiro lugar devemos contemplar os portos comerciais que são os mais exigentes nas três características essenciais que , aliás, poucos portos portugueses possuem.

 

Convém no entanto especificar um   pouco mais dois tipos de transporte marítimo que implicam diferentes exigências portuárias: longo curso e costeiro. O primeiro exige fundos nos cais, nos canais de acesso e nas bacias de manobra bastante generosos, embora dependentes dos tipos de navios que se prevê utilizar, enquanto o segundo utiliza navios de menor porte que lhes permita o acesso a muito mais portos e assim efectuar a distribuição por via marítima, evitando o uso do meio rodoviário pesado sempre que possível e em complemento com o ferroviário e o fluvial que são os meios menos  poluidores e mais económicos do ponto de vista energético.

 

Em Portugal os portos de longo curso poderão ser Sines, Setúbal, Lisboa, Leixões embora alguns destes com limitações.

 

Os costeiros (short sea) poderão ser Vila Real de Santo António, Faro, Portimão, Sines, Setúbal, Lisboa, Peniche, Figueira da Foz, Aveiro e Viana do Castelo.

 

A característica mais importante dos portos, estando garantida a segurança indispensável , é serem essenciais para a competitividade do país pois sendo os portos  a entrada e a saída da maioria das mercadorias que importamos e exportamos, da sua eficiência dependem os custos das importações e as margens das exportações. E ainda a efectividade das actividades como a marinha de recreio que desde sempre devia ter sido tratada como merecia mas que, agora com a possibilidade de acolher a realização da taça da América, se verificam os erros de princípio e de dimensão que têm vindo  a ser cometidos ao  longo da nossa costa.

 

Esperemos que os atrasos de nossa responsabilidade não venham a anular as vantagens naturais que temos por estar colocada entre Lisboa e Cascais uma das melhores zonas para a prática de vela oceânica do mundo, até agora tão mal aproveitada.

 

 

Quanto ao movimento de mercadorias os valores das movimentações nacionais rondam, entre entradas e saídas, 55  milhões de toneladas anuais num volume mundial de 12 000 milhões o que nos deve dar a consciência das proporções e dos mercados que estão em jogo quando se tomam decisões estratégicas para o País.

 

Por outro lado a maioria dos nossos portos têm terraplenos muito pequenos e acessos ao “hinterland” pouco eficazes até porque o nosso país nunca teve um sistema de transportes mas apenas impulsos reformadores parciais, portanto não sistémicos como devia ter sido realizado. Impulsos esses que actualmente produzem projectos de  aeroportos e de comboios caríssimos e mais ou menos mirabolantes, em vez de sistemas de transportes realmente efectivos na sua contribuição para a competitividade nacional.

 

Para termos ideia das devidas proporções devemos recordar que alguns portos do norte da Europa têm dezenas de milhar de hectares de terraplenos contra apenas algumas dezenas do nosso de Lisboa, que é dos melhores que temos, e os volumes de tráfego ( da ordem das centenas de milhões de toneladas anuais) que neles se verificam não autorizam grandes expectativas de ligações trans-europeias, devendo nós ficarmos pelo hinterland natural que é mais ibérico que europeu.

 

Quanto à marinha de recreio tem sido desprezada pelas administrações portuárias e pelos ministérios de que dependem como é exemplo flagrante o de Lisboa : estudos realizados há cerca de vinte anos determinaram que Lisboa devia ter pelo menos cerca de 20 000 postos de atracação quando afinal anda ainda pelos dez por cento. E o que é mais grave é estarem a ser ocupadas áreas apropriadas para estas e outras actividades marítimas com edifícios que poderiam estar algures ou como a torre inclinada em sítio nenhum.

 

Em conclusão, é indispensável uma revisão de todos os portos portugueses, e de toda a costa,  com critérios de competitividade como atrás se apontaram não só para preservar o ambiente mas também para avaliar o que se pode e deve fazer para desenvolver actividades estruturantes e não apenas casinos e restaurantes, que podem dar jeito, mas não o são.

 

E não apenas para salvar o ambiente, o que é importante, mas também para salvar o País da mediocridade, o que não é menos importante.

 

3º - Transportes marítimos


Transportes marítimos ou marinha mercante foi a actividade que os portugueses desenvolveram e lhes permitiu terem sido os iniciadores da globalização.

 

Na verdade trata-se de grande simplificação pois o que nós, i.e., os portugueses do  século XV criaram foi o poder marítimo global.

A evolução do tráfego marítimo mundial está expresso na curva seguinte:

 

 

Actualmente atinge cerca de 6 000 milhões de toneladas o que significa que o movimento nos portos de todo o  mundo ronda 12 000 milhões de toneladas o que coloca as nossas poucas  dezenas de milhões de toneladas no nível da realidade que é.

 

O nosso tráfego próprio não chega para base de qualquer frota nacional  importante ainda por cima se tomarmos em consideração a diversidade de origens e destinos.

A única solução, que estava já em evolução em 1974, era desenvolver o negócio de ser terceira bandeira como fizeram alguns países, conforme atrás indicámos, o que exige aos empresários respectivos grande capacidade empresarial e um enquadramento extremamente competitivo, que nunca  tiveram entre nós excepto até 1974 quando imperava a protecção de bandeira entre os territórios portugueses, aliás como hoje se processa em países que são considerados como muito liberais.

 

Enquadramento que engloba financiamentos, custos sociais, fiscalidade, justiça muito eficaz, burocracia ágil e eficiente...

 

Em resumo quando se fala sobre transportes marítimos o mercado que interessa considerar para efeitos estratégicos é o global.

 

É claro que tem que se olhar  também para o nacional: não tem qualquer sentido que se transportem cargas como cimento, combustíveis e outras entre portos nacionais por estrada e não se use a via marítima só porque os portos são tão pouco competitivos que os empresários são obrigados a escolher opções erradas por serem as melhores possíveis.

 

Mas não é só no transporte de mercadorias que se verificam estas anomalias. No transporte de passageiros quando surgiram os aviões a jacto, que permitiram melhorar as viagens de longo curso da forma conhecida, os navios de passageiros tradicionais ficaram irremediavelmente condenados. Os armadores mais atentos e empreendedores transformaram-nos em navios de cruzeiros dando origem aos actuais hotéis flutuantes que todos conhecem. Os armadores nacionais venderam-nos todos,  salvo temporariamente o “Funchal” que logo no primeiro ano de operação se revelou capaz de gerar lucros, mas que logo a seguir foi alienado a armador grego, depois de ter acumulado prejuízos por má gestão. Diga-se de passagem que só não foi vendido, porque nesse tempo o então Presidente da República, Alm. Américo Tomás, a isso se opôs.

Anos mais tarde tive conhecimento de ter sido proposto a um dos maiores hoteleiros portugueses a constituição de uma empresa de navios de cruzeiro, como complemento das suas actividades em terra e com os incentivos de aumentar as motivações para manter clientes na sua influência pela oferta de mais este serviço, e ser possível investir com muito menor necessidade de capital, dadas as condições excepcionais de financiamento que então ofereciam os estaleiros construtores. Sem qualquer consequência positiva.

 

Hoje somos visitados por inúmeros navios mas nenhum é português.

 

É claro que não é  tarefa fácil competir neste mercado global que nós próprios fomos os primeiros a desenvolver. É bastante mais aliciante ganhar uns dinheiros em subsídios se possível utilizando mão de obra importada barata e em pouco tempo, já que nesta alternativa o período de fertilidade dos negócios é de quatro anos e na alternativa competitiva não tem prazo pré definido.

 

Como sempre o desenvolvimento passa pelo dinamismo do binómio poder empresarial/poder político.

 

4º Mudança de rumo ou colisão


Antes de acabar quero deixar uma nota de esperança, pois dizer de optimismo seria demais para quem anda, há cerca de trinta anos, nesta luta inglória a favor de uma estratégia nacional virada para o Mar, e em que o único sucesso dessa luta é estar aqui hoje convosco, estratégia essa que não seja estar sentado num restaurante à beira dele, e que é a seguinte: temos pessoas capazes e com trabalho já feito, algumas delas aqui presentes que poderão, assim que houver vontade política, preparar, em pouco tempo, a revisão de todo o enquadramento legal que é indispensável, com a certeza que não é preciso sobrecarregar o erário público, pois será mais o que entrará que o que sairá dele.

 

Muitos destes trabalhos foram entregues oportunamente a quem de direito mas nada aconteceu para além do silêncio e da quietude dos cestos de papéis.

 

Devo dizer-vos que tenho conhecimento de alguns projectos nesta área de actividades marítimas, atingindo valores da ordem de algumas centenas de milhões de euros, que só não estão a desenvolver-se porque não há interlocutores com poder de decisão para que isso aconteça.

 

Quanto à nossa fragilidade empresarial, ainda mais agravada pelas mal denominadas nacionalizações, só poderá ser ultrapassada por um esquema idêntico ao pombalino e que hoje cada vez mais se justifica para equilibrar os efeitos da globalização, já que combatê-la não passa de tolice, como a que seria se quiséssemos combater a gravidade.

 

Trata-se de um princípio de gestão de cada país, denominado residencialismo, ou até de cada região conforme as respectivas dimensões, que defina determinadas actividades só poderem ser exercidas por empresas cujos sócios sejam obrigatoriamente nelas residentes: como exemplos de actividades a incluir nesta categoria temos a distribuição de água, de electricidade, de gás, de telefones, de transportes marítimos, aéreos, ferroviários e rodoviários, etc..

 

A aplicação deste princípio evitaria as complicações das “golden shares” e dos receios de o país perder o controle de actividades estruturantes e essenciais à sua segurança.

 

Se se corrigirem os desvios apontados e se seguirem os princípios correctos ainda devemos ir a tempo de evitar a colisão que já espreita, não longe da nossa vista.

 

Assim seja.



publicado por JoseViana às 16:49
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