Quinta-feira, 18 de Julho de 2013
Portugal pobre ou mal governado?

Portugal a partir do início do século XIX foi normalmente um país mais pobre que rico, embora na verdade isto tenha sido assim desde o século XVI.


O Brasil deixou de ser fonte de receita, as outras colónias nunca foram aproveitadas e nem o episódio do mapa cor de rosa serviu de lição, pois em vez de ser corrigida a gestão medíocre destes territórios, atribuíram-se as culpas todas aos ingleses e nada aconteceu de positivo.


Quando nasce a República o país estava muito empobrecido, segundo algumas estatísticas no mesmo grau de pobreza que se atingiu após estas últimas duas décadas, até 2010, de vida folgada a crédito.


Segundo essas mesmas estatísticas o nível máximo de riqueza em Portugal foi atingido em 1961, embora a gestão das nossas riquezas ultramarinas, como se passaram a chamar as antigas colónias, nunca tenha sido praticada com a desejável eficiência, o que originou as guerras coloniais, e a partir desta data a nossa riqueza tenha vindo sempre a descer até agora.


Reportando-me apenas à época em que eu vivi podemos constatar que na verdade não somos um país pobre mas sim muito mal governado.


No fim da II guerra mundial, tendo recusado o auxílio do Plano Marshall, o que provavelmente não foi assim tão errado, iniciámos um processo de desenvolvimento de que a execução do plano do Despacho 100 referente à Marinha Mercante foi um passo essencial, mas mais tarde ao falharmos a execução do plano energético que previa a instalação de energia nuclear, demos um passo atrás de dimensão catastrófica que ainda poderia ter sido corrigido se, em 1972, a chamada crise do petróleo tivesse alertado as nossa elites dominantes para o perigo da dependência desta fonte energética.


Na verdade o nosso país entre as energias nuclear, eólica e solar, e uma gestão inteligente da água, poderia ser praticamente independente do petróleo, desde que o ordenamento do território e a gestão dos sistemas de transportes fossem eficazes.


O que não aconteceu.


Temos hoje um ordenamento deplorável, um sistema de transportes em que se favoreceu o rodoviário (o que tem maior consumo de energia e maior poluição) destruímos o transporte marítimo e fluvial, gerimos mal o ferroviário e o ordenamento do território foi essencialmente gerido para maximizar os ganhos imediatos da construção e da especulação imobiliária.


 Com os resultados à vista.


A nossa competitividade foi altamente comprometida, entre 90 e agora baixámos cerca de vinte lugares no “ranking” mundial da competitividade, e assim o único fator de produção que podemos reduzir é o custo da mão de obra, que é exatamente o contrário do que aconteceria se tivéssemos sido bem geridos.


Nunca se pode esquecer que a competitividade e a sustentabilidade são essenciais para se desenvolver um país no curto e no longo prazo e que um país só se pode considerar verdadeiramente desenvolvido, quando o fator de custo de produção mais protegido for exatamente a mão de obra e não o contrário como aconteceu aqui.


Aliás os países com níveis de competitividade mais altos têm também os salários mais altos, porque ela, a competitividade, depende essencialmente da qualidade da gestão das empresas e do país e não de salários baixos.


Nas últimas duas décadas não só destruímos muita produção industrial e agrícola como tivemos uma política de transportes oscilando entre e a indigência e a mediocridade, com a agravante do enorme endividamento que foi necessário para cometer tantos erros e/ou crimes e ainda pela criação de excessivos intermediários improdutivos e de parasitas originados pelos partidos políticos, tudo isto de difícil e morosa correção.


E ainda por cima esquecendo questões essenciais como o aumento da longevidade da população, a diminuição da natalidade, as alterações tecnológicas e climáticas, a evolução mundial e as boas práticas de gestão.


Situação tanto mais complicada porque muitas das corporações têm mostrado estarem mais atentas aos seus lucros próprios e imediatos que aos interesses do país.


Mas afinal quais as razões estruturais para esta incapacidade dos portugueses para saírem de uma vez destas situações de pobreza, sempre fruto de serem mal governados, quer seja porque em certas ocasiões vivíam em ditadura e noutras em democracia, mas mantendo intacta uma cultura (não aquela que pertence ao Ministério com esse nome mas a que define os comportamentos e as atitudes da população) incapaz de permitir e motivar a prática generalizada, tanto da parte dos poderes públicos como dos privados, dos princípios da gestão eficiente.


Vejamos agora quais as práticas dos detentores do poder típicas desta cultura (por ordem alfabética da palavra chave):

 

Corrupção generalizada, isto é democratizada pois aumentou com a democracia e com as deficiências da Justiça

Compadrio, i.e., desprezar o valor das pessoas em favor de interesses pessoais e/ou políticos

Tomarem decisões casuísticas e discricionárias não distinguindo o essencial do acessório e favorecendo a corrupção

Não zelarem pela atuação eficiente dos órgãos de soberania, antes favorecendo comportamentos favoráveis aos seus interesses próprios e não aos do país

Darem preferência ao imediatismo originado pelo período entre as eleições em vez de a dar à sustentabilidade, como aconteceu por exemplo com a atividade imobiliária e com as auto-estradas

Não permitirem a livre iniciativa nem produzirem regulamentações eficazes que evitem o condicionamento da atividade económica, desmotivando os investidores e motivando a corrupção

Não evitarem nem combaterem monopólios em qualquer tipo de atividade, incluindo a política e a corporativa

Não motivarem a população no sentido do aumento da competitividade, da valorização individual e da participação na vida coletiva

Não se libertarem de preconceitos e ideias feitas, sejam de natureza ideológica, religiosa ou outras

Acederem a cargos de elevada responsabilidade sem estarem preparados para os exercer eficientemente

Não terem vergonha de praticar atos abusivos que criticavam aos detentores do poder anteriores


A propósito é interessante recordar Camões, Eça de Queirós, Fialho de Almeida, Camilo Castelo Branco, Aquilino Ribeiro, Tomás Figueiredo, Miguel Sousa Tavares, Mário Soares, Marcelo Rebelo de Sousa, Paulo Morais e tantos, tantos outros que nos seus escritos e intervenções sempre mostraram estas realidades e os prejuízos e dificuldades que causaram ao nosso País. Causaram e causam.


E já agora uns autores estrangeiros como Daron Acemoglu e James A. Robinson num livro muito oportuno “Porque falham as nações” para se compreender melhor quais foram as causas desta situação e como poderemos sair dela por cima e não por baixo.


Passando da análise para a solução constato que quase toda a gente com quem falo me diz: o que poderemos nós fazer para criar postos de trabalho para mais de um milhão de portugueses, se já não temos tudo isso que em tempos idos não soubemos aproveitar?


De facto já não temos territórios externos mas temos o nosso território atual e uma população, ambos até aqui mal aproveitados pelas medíocres práticas de gestão das nossas elites responsáveis.

 

Temos ainda muita capacidade desaproveitada em:


Turismo de qualidade principalmente ligado às atividades náuticas como são exemplos o estuário do Tejo, o Sotavento Algarvio e outros locais, empresas de navios de cruzeiros que já começaram a atuar, às atividades agrícolas e gastronómicas, às atividades medicinais, às atividades universitárias desde que se saiba tirar partido dos interessados de língua portuguesa em frequentar cursos em universidades que sejam geridas de forma idêntica a outras como por exemplo inglesas ou norte americanas;  


Indústrias que já temos mas que deverão ser incrementadas em especial as que produzem bens da elevada qualidade;


Energia solar, que por razões ainda por explicar, não tem o desenvolvimento que deveria ter de forma a reduzirmos a importação de produtos petrolíferos;


Produção de veículos movidos eletricamente em especial para usar nas povoações reduzindo a importação e podendo exportá-los;


Voltar a ter empresas de navegação além das de turismo, que já vamos tendo;


Favorecer inteligentemente o desenvolvimento de empresas de grande porte sem as quais não poderemos ter acesso às riquezas do nosso território marítimo e outras atividades que só podem ser praticadas por elas e não por PMEs,


Piscicultura;


Indústrias metalo-mecânicas incluindo estaleiros navais;


Tecnologias de informação         

                                                                           

Aqui chegados a pergunta que se coloca é: como corrigir a situação se os órgãos de soberania estão dominados pelos partidos cuja cultura é manifestamente imprópria, como a situação atual demonstra sem qualquer dúvida, mas que por seu próprio esforço são incapazes de alterar?


Cada vez as ruas se enchem mais frequentemente com gente a protestar contra o que parece estar errado, embora uma grande parte dela não só não parece saber como sair desta situação, como não entende poder ter colaborado, por ignorância ou distração, nos atos que originaram a pobreza atual, como por exemplo quando, por razões ideológicas de esquerda, foram destruídas muitas empresas, assim se perdendo muitos postos de trabalho e a própria segurança do país.


Temos um Parlamento que tem dado provas de baixa eficiência e em que os deputados não são responsabilizados, até porque a nossa Constituição é na verdade de um sistema bi-presidencialista pois elege-se um Presidente da República e um Presidente do Conselho de Ministros que por sua vez nomeia os deputados que legalizam a sua eleição, não tendo eles assim qualquer elo de responsabilidade com os eleitores. E a irresponsabilidade é muito má conselheira.


 Aliás tem sido notória a redução de despesas que não foi feita na Assembleia da República, no Conselho de Ministros e na Presidência da República, bem como nas Autarquias em comparação com os sacrifícios que grande parte dos cidadãos tem suportado.


E a famigerada reforma do Estado em vez de uma reestruturação quer dos órgãos de soberania centrais quer das autarquias, cuja contribuição para a baixa competitividade é enorme, continua a não passar de listas de cortes que é exatamente o que não se deve fazer, pois a solução não é passar trabalhadores de empregados para desempregados mas sim passar trabalhadores em funções inúteis (e portanto parasitas) para outras produtivas.


Que é preciso criar e/ou recriar.


Estamos agora a chegar ao fundo.


Para recuperarmos a riqueza perdida e/ou desperdiçada é forçoso alterar profundamente a cultura vigente, sabendo-se no entanto que muitas das atuais forças dominantes se mostram incapazes de realizar as mudanças e outras se opõem a elas por inércia, egoísmo e ignorância, como se pode avaliar no dia a dia da nossa vida política.


Mas nem tudo está perdido.


Uma vez mais na história da humanidade uma tecnologia nova poderá permitir uma solução moderna e eficiente: a “web”.


Primeiro vamos apontar o que é preciso fazer de concreto para se alterar a cultura vigente e que não possa ser impedido pelos partidos políticos e pelas corporações que indiciem desvios do comportamento democrático eficiente:


1º-aproveitar a “web” para estreitar a ligação entre toda a população e entre ela e as forças vivas políticas e corporativas de forma a permitir haver informação sobre todos os ocupantes atuais e os candidatos a cargos públicos, poderem ajuizar completamente a sua capacidade para ocuparem esses cargos e assim irem sendo sobressaídos os melhores e descartados os piores, evitando ou pelo menos tentando evitar o atual excessivo número de figuras de baixo nível cultural e profissional em cargos de responsabilidade.


Além disto também contribuirá para atrair para a vida política algumas personalidades que atualmente não aceitam o esquema atual.


Já existem na “web” referências a plaformas Wiki, a portais “egov” e outras que permitem ter forte convicção de que será possível a curto prazo ser criada uma plaforma que resolva esta questão.


2º-alterar a Constituição, tendo presentes os princípios da gestão eficiente e não apenas conceitos jurídicos de forma a que ela seja de facto uma fonte de eficiência, competitividade e sustentabilidade sem prévias influências ideológicas antigas ou novas, mas que se comportam como preconceitos impeditivos de uma análise correta e imparcial da vida do país tanto do ponto de vista económico como moral, social e ecológico, tendo sempre em vista a competitividade e a sustentabilidade nacionais.


3º-alterar a organização dos Órgãos de soberania e das Autarquias de forma a permitir a sua otimização tanto na redução de custos como no aumento da eficiência do seu funcionamento, para que não se torne a verificar uma situação como a atual em que o  excesso de gastos parasitas e a baixa eficácia pôs em perigo o nível do estado social sustentado, com a total complacência daqueles a quem competia o controle das ações do Poder executivo.


Assim será possível a participação da maior parte da população, do Povo, no controle da qualidade dos responsáveis e dos atos por eles praticados de forma a eliminar os desvios incomportáveis das verbas movimentadas pelo Estado e permitir a adoção generalizada da transparência, da integralidade e da eficiência como normas a cumprir por todos eles.


E insisto em que a revolução cultural que se pretende deve ser no sentido de deixar de se falar em cortes mas sim em alterações estruturais concretas e bem justificadas, deixar de se falar em despedimentos mas sim em mudanças de funções pois o que se deve eliminar são as funções parasitas ou inúteis e substitui-las por outras produtivas, deixar de falar em fascismo quando se exige disciplina e recordar que para se viver bem em democracia verdadeira é preciso ter chefias muito melhor preparadas que numa ditadura, seja ela de direita ou de esquerda.


A História ensina que uma democracia sem chefes competentes rapidamente se pode transformar numa ditadura. E quem vai pagando sempre os custos dos desmandos das chefias é o Povo.

 

Lisboa, 17 de Julho de 2013



publicado por JoseViana às 00:32
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1 comentário:
De João José Horta Nobre a 17 de Novembro de 2013 às 01:38
Publiquei:

http://www.historiamaximus.blogspot.pt/2013/11/portugal-pobre-ou-mal-governado.html

Contacto: historiamaximus@hotmail.com


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