Segunda-feira, 4 de Novembro de 2013
Reflexões revolucionárias

Os dois pontos de partida:


1ºSó a compreensão rigorosa da realidade e do seu próprio comportamento permitirá cada um melhorar e progredir.


2ºDiz-nos a sabedoria antiga que as árvores se conhecem pelos seus frutos.


E as revoluções, tal como as árvores, podem ser avaliadas desde o ponto de vista dos frutos que deram.


Assim as recentes comemorações e alguns acontecimentos a elas ligados levaram-me a pôr no papel estas reflexões, com dois objetivos essenciais: serem uma contribuição para a história do 25 de Abril e simultaneamente para a compreensão da crise que tanto nos aflige agora e afligirá nestes anos próximos, dadas a sua dimensão e a sua profundidade estrutural.


Durante os séculos XIX e XX tivemos várias revoluções, não sei quantas, mas só duas delas tiveram maior impacto e são comemoradas anualmente. A que transformou a monarquia em república em 5 de Outubro de 1910 e a de 25 de Abril de 1974 que transformou a ditadura em democracia.


Em ambas houve atos heroicos e de coragem e atos de desânimo e cobardia, dos primeiros mais em quem ganhou e dos segundos, mais em quem perdeu, pois também aqui se verificou a frase de Damião de Gois “mais vale um exército de ovelhas chefiado por um leão, que um exército de leões chefiado por uma ovelha”.

Passados estes quase quarenta anos sobre 74 podemos analisar com suficiente panorama como ela se processou e quais as principais consequências que dela resultaram e compará-la com a de 1910, com a vantagem de termos vivido esta de perto, digamos mesmo muito perto.


Numa visão muito geral ambas foram mais perdidas por quem detinha o poder que ganhas por quem o quis conquistar, o que tendo as vantagens de haver menos violência no momento da revolução, teve os inconvenientes de provocar um início de regime governativo fraco e sujeito a muitas e variadas conturbações.

Assim em 1910 instalou-se bastante confusão política e natural empobrecimento do país o que provocou outra revolução, a do 28 de Maio, que de seguida instaurou uma ditadura que durou até 74.


O desassossego desapareceu bem como a liberdade, mas grande parte da população aceitou bem a situação com exceção de duas minorias,  havendo numa delas forte presença comunista que inclusive tentou no início da década de 30 um golpe, que pareceu ter como objetivo a ligação unitária com o governo de Espanha.


 Não resultou como se sabe, e daí resultou uma perseguição contínua aos membros deste partido que durou até 74, ainda agravada pelo facto da sua ligação com a União Soviética cujos interesses em África eram contrários aos nossos, como se verificou nas guerras coloniais iniciadas em 1961.


Aliás é curioso o diferente tratamento dado ao nazismo e aos estalinismo, o primeiro de natureza nacional-socialista que praticou atos tremendos e tentou dominar o mundo pela força militar e instalou uma ditadura feroz, o segundo de natureza socialista/ comunista que igualmente instalou uma ditadura feroz e desenvolveu durante várias décadas um plano de expansão de poder protegendo a instalação em vários países de regimes comunistas todos ditatoriais.


Os partidos de natureza nazi são proibidos ou mal aceites, o que não sendo muito democrático no entanto pode ser compreensível, mas os partidos comunistas fizeram uma adaptação ou uma lavagem de certo modo influenciada pelas alterações havidas após a implosão da União Soviética e no fim da influência que esta tinha nesses partidos.


Talvez haja uma explicação mais simples: o nazismo era de origem alemã e a Alemanha perdeu a guerra, enquanto o comunismo era de origem soviética e a União Soviética tinha –a ganho. E os pecados são mais facilmente perdoados aos vencedores.


No entanto quero deixar bem claro, principalmente aos meus amigos que foram ativos combatentes anti-ditadura e que iniciaram estas atividades pertencendo ao partido comunista, que não estou a criticá-los, o que em qualquer caso seria tolice inaceitável, que tal caminho era praticamente inevitável, quanto mais não seja por duas razões: nessa altura ainda não eram conhecidas as atrocidades praticadas por Estaline e a segunda porque me recordo de uma observação feita por meu Pai, alguns meses antes de falecer em 1949, “ vais ver que quando Salazar sair, quem vai tomar conta disto é o partido comunista, porque é o único que ele deixa organizar-se”.


E mais. A evolução verificada nestes últimos anos autoriza-nos a ter esperança em que as virtudes do trabalho e da perseverança superem os aspetos negativos relacionados com as origens e com os desvios que na verdade todos os partidos acabam por praticar durante a sua história.

 

Mas, insisto, todos têm que saber analisar-se neste momento de crise em que praticamente todos têm responsabilidades, embora os que ocuparam os lugares cimeiros sejam os que maior peso de culpas carreguem.


Entretanto, durante o período da ditadura, a liberdade reduzida e a deficiente gestão praticada, em especial nos territórios ditos ultramarinos, não só não permitiu a expansão desejável, como aconteceu com o Acto Colonial e outros erros, que criaram as condições para a eclosão das referidas guerras, como o desenvolvimento que entretanto se verificara após 1945, e havia feito crescer a riqueza nacional até ao seu nível máximo em 1961, alterou-se, e essa riqueza passou a diminuir até ao nível atual, idêntico ao que tínhamos no início do século XX.


Em 1974 num relatório realizado pela PIDE e enviado ao Presidente do Conselho Prof. Marcelo Caetano, muito pouco tempo antes de 25 de Abril, que tive ocasião de ler, embora não tão devagar quanto gostaria, e que depois só uma ou duas vezes ouvi referenciar, pois parece ter desaparecido, apresentava listas dos revolucionários, locais de reunião, etc.,etc.,isto é tudo o que seria necessário e suficiente para destruir o movimento.

 

Mas tinha um despacho exarado pelo Presidente do Conselho no ofício de capa a ele dirigido que dizia algo como:” isto não tem importância, prestem atenção ao General Kaúlza de Arriaga”.


O que significa que só houve o 25 de Abril, como aconteceu, porque o Prof. Marcelo Caetano assim quis, pois tinha toda a informação para fazer abortar o movimento revolucionário. Tal como tinha acontecido com o movimento de Março certamente doutra forma.


Portanto uma vez mais quem estava no poder perdeu e quem ganhou não tinha a coesão e a estrutura preparada para gerir o País de forma eficiente.


Assim imperou a demagogia e as visões ilusórias e/ou propositadas de vários tipos de esquerda que se uniram: uns para combater pelos seus ideais outros para obterem interesses e/ou colocações em lugares desejáveis. E assim se fizeram as mal chamadas nacionalizações de empresas que na verdade foram estatizações, pois nacionais já elas eram, e não houve nenhuma estrangeira afetada, donde resultou a primeira destruição do nosso património produtivo. E obviamente de muitos postos de trabalho que agora tanta falta fazem.


Além desta destruição verificou-se também a destruição do ensino técnico, que embora necessitasse correções tinha propiciado ao País a existência de um corpo técnico do melhor que então havia no mundo.


A segunda destruição maciça deste património veio a dar-se mais tarde quando aderimos à CE e não compreendemos, ou melhor não compreendeu quem nos governava nem a maioria da forças políticas e corporativas que agora tanto protestam contra a situação atual, mas que nessa altura pareciam anestesiados pela fartura de dinheiro fácil que nos invadiu, não reparando que era muito dele a crédito e mais tarde viria a fatura para pagar.


No entanto com o fim da ditadura e abertura ao contacto internacional sem o controle pidesco e alguns preconceitos a menos, houve modernização em muitos aspetos da vida social, artística, política e de bem estar, que só pecou após a adesão à CE porque  se entrou na escalada crescente do endividamento geral e do esquecimento da importância essencial de valorizar a preparação da população com vista a subir rápida e sustentadamente a sua capacidade produtiva de forma a não investirmos em fabricos de baixo valor acrescentado e antes pelo contrário aumentarmos os investimentos de produções de valor mais elevado.


Desenvolvemos tolices como o turismo de sol e praia, privilegiando os níveis inferiores desta atividade ainda por cima com maiores taxas de sazonalidade e diminuímos a produção de bens de consumo, aumentando as importações e diminuindo o valor acrescentado do produto turístico.

Tudo isto agravado pelo endividamento nestes últimos anos em mais de 100 000 milhões de euros dos quais muito pouco em investimentos produtivos, donde resultou a enorme dívida nacional e cuja explicitação ainda não está completada mas de que a maioria da população já está a sofrer as consequências, esperando-se que seja possível, pois desejável é com certeza, conhecer-se todas as suas dimensões e respetivos responsáveis. Quanto mais não seja para tão cedo não se repetir este comportamento suicida.


E tanto ou mais grave, desenvolveu-se uma cultura de consumismo e de direitos adquiridos que seria excelente se não fosse totalmente insustentável a curto e médio prazo.


Com a agravante de se ter desenvolvido uma quantidade considerável, digamos certamente superior a 100 000 de parasitas, isto é, pessoal com funções inúteis, quando não até prejudiciais, que passaram a onerar insuportavelmente o erário público.


Como se esta a verificar.


Por outro lado os investimentos potenciais em várias áreas de atividade que no tempo da ditadura tanto se criticava a sua dependência do poder discricionário dos governantes, continuam a esperar anos, quando não mesmo décadas, como se passa com casos relacionados com o mar, adiando-se sistematicamente a criação de postos de trabalho sustentados, quer do ponto de vista económico como ecológico, como se não fosse essencial para o País poder sair da crise em que se encontra.


Agravando-se ainda mais a corrupção agora mais democratizada e portanto mais generalizada, como se pode ajuizar pelo número de individualidades que saíram do Governo para cargos em empresas que tinham tido negócios de grande porte com o Estado.

 

E repetindo-se a história, a confusão e o caos desta feita não nos deu uma ditadura, porque os tempos são outros, e assim tivemos de recorrer a uma “troika”para não entrarmos em bancarrota, embora aqueles (leia-se políticos e corporativos) que mais contribuíram para esta situação não pareçam ter consciência disto e continuem a realizar as reformas de forma algo titubeante além de muito lenta e não cumprindo todas as normas e os preceitos que são indispensáveis a uma gestão eficiente:


Distinguir o essencial do acessório

O primeiro fator é o pessoal

Haver sempre responsáveis

Basear-se nos pontos fortes e não nos fracos

Tomar decisões efetivas e oportunas

Libertar-se de preconceitos e ideias feitas

Apontar mais para os resultados que para o trabalho


24 de Maio de 2012



publicado por JoseViana às 11:41
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