Sábado, 9 de Novembro de 2013
Autocolonialismo, ou como se destruir alegremente

Em 1998 fixei residência em Tavira para melhor tratar de resolver questões ligadas a partilhas, donde regressei a Lisboa por volta de 2006, embora continuasse a manter ligações muito estreitas com aquela cidade.

 

E foi lá que conheci de perto o meu primeiro caso de observação de autocolonialismo.

 

O colonialismo desde há alguns anos muito justamente condenado, foi durante séculos, provavelmente desde o início da História da Humanidade, tal como a escravidão, uma consequência fatal da luta pela sobrevivência dos povos, obviamente ligada também à força derivada da ganância dos seres humanos.

 

As colónias eram assim territórios e respetivas populações em que o colono de forma mais ou menos violenta tomava conta do poder total ou apenas parcial para poder usufruir de matérias primas, alimentos, mão de obra (frequentemente escrava), de uma localização privilegiada ou qualquer outra razão justificativa desta apropriação.

 

Como exemplo antigo e bastante conhecido temos as colónias dos fenícios.

Com o desenvolvimento da globalização, iniciada pelos portugueses no século XV, aumentou muito o número de colónias por esse mundo fora, atingindo o máximo nos finais do século XVIII, e embora a revolução francesa tivesse marcado o início da onda das descolonizações que depois se verificaram, ainda na mudança do século XIX para o século XX se verificava a existência dos maiores impérios coloniais da história.

 

As duas guerras mundiais, de 1914-18 e 1939-45 mais a evolução tecnológica e social ditaram o desaparecimento progressivo de quase todas a colónias, e digo quase pois não julgo seguro afirmar que já não há colónias.

 

Entretanto assisti em Tavira ao nascimento, pelo menos para mim, pois não tinha então conhecimento de qualquer caso de autocolonialismo, isto é, em que a própria população, ou melhor principalmente através de decisões do seu chefe por ela eleito, transforma o município numa colónia de uma entidade de fora.

 

O contrário do colonialismo é a independência e esta só é possível se houver independência económica. O que implica que as fontes de riqueza principais da cidade dependam de cidadãos aí residentes que explorem empreendimentos envolvendo as potencialidades locais e outras.

 

Que neste caso foram durante séculos o porto e algumas produções agrícolas e a pesca, particularmente quatro armações de atum.

 

Mas o atum afastou-se da costa e as armações, não foram capazes de se adaptarem e desapareceram. As produções agrícolas vitimadas pela política pós entrada na CE diminuíram e a única receita que aumentou foi a relativa ao turismo de sol e praia com uma taxa de sazonalidade enorme.

 

A solução para resolver esta situação desastrosa parecia ser a de aproveitar a maior riqueza potencial desta cidade que é o seu rio, a sua ria e as atividades náuticas e de observação da natureza que tudo isto proporciona, enquadrada por um clima excepcional todo o ano.

 

Para se atingir esse objetivo era e é imprescindível a construção de uma marina nas salinas e portos de recreio em Santa Luzia, Cabanas e junto do forte de Santo António, além doutros projetos menores no rio Gilão e do porto de pesca há muito previsto.

 

Tudo isto foi apresentado há vários anos mas nunca teve qualquer seguimento por parte da Autarquia e do Governo.

 

Entretanto muita da área com boas condições para a produção agrícola foi ocupada com imobiliário e por último foi construído um centro comercial que provocou o fecho de parte do tecido comercial do centro da cidade, passando o domínio desta atividade para os donos do dito centro, o que a transforma numa colónia doutra cidade.

 

Tal como acontece com a maioria dos equipamentos turísticos que pertencendo a pessoas não residentes neste concelho funcionam como numa colónia.

 

E como foi por iniciativa própria e não por conquista vinda de fora trata-se pois de um caso de autocolonialismo.

Porém o que mais me preocupa é que estamos a assistir ao mesmo fenómeno a nível nacional: as empresas de grande porte como a CUF e a Siderurgia e outras foram destruídas pela nossa esquerda durante o PREC e as outras como a Cimpor, a PT, a EDP, a ANA, etc estão a ser vendidas a estrangeiros.

 

E a continuar assim, sem estimular os capitais portugueses a investir em Portugal em breve todo o País será uma colónia sabe Deus de quem: agora sabemos que é a Troika que manda, e depois, quem será?

 

Publicado no DN em 26 de Dezembro de 2013

 

 



publicado por JoseViana às 17:01
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