Sábado, 9 de Novembro de 2013
Autocolonialismo, ou como se destruir alegremente

Em 1998 fixei residência em Tavira para melhor tratar de resolver questões ligadas a partilhas, donde regressei a Lisboa por volta de 2006, embora continuasse a manter ligações muito estreitas com aquela cidade.

 

E foi lá que conheci de perto o meu primeiro caso de observação de autocolonialismo.

 

O colonialismo desde há alguns anos muito justamente condenado, foi durante séculos, provavelmente desde o início da História da Humanidade, tal como a escravidão, uma consequência fatal da luta pela sobrevivência dos povos, obviamente ligada também à força derivada da ganância dos seres humanos.

 

As colónias eram assim territórios e respetivas populações em que o colono de forma mais ou menos violenta tomava conta do poder total ou apenas parcial para poder usufruir de matérias primas, alimentos, mão de obra (frequentemente escrava), de uma localização privilegiada ou qualquer outra razão justificativa desta apropriação.

 

Como exemplo antigo e bastante conhecido temos as colónias dos fenícios.

Com o desenvolvimento da globalização, iniciada pelos portugueses no século XV, aumentou muito o número de colónias por esse mundo fora, atingindo o máximo nos finais do século XVIII, e embora a revolução francesa tivesse marcado o início da onda das descolonizações que depois se verificaram, ainda na mudança do século XIX para o século XX se verificava a existência dos maiores impérios coloniais da história.

 

As duas guerras mundiais, de 1914-18 e 1939-45 mais a evolução tecnológica e social ditaram o desaparecimento progressivo de quase todas a colónias, e digo quase pois não julgo seguro afirmar que já não há colónias.

 

Entretanto assisti em Tavira ao nascimento, pelo menos para mim, pois não tinha então conhecimento de qualquer caso de autocolonialismo, isto é, em que a própria população, ou melhor principalmente através de decisões do seu chefe por ela eleito, transforma o município numa colónia de uma entidade de fora.

 

O contrário do colonialismo é a independência e esta só é possível se houver independência económica. O que implica que as fontes de riqueza principais da cidade dependam de cidadãos aí residentes que explorem empreendimentos envolvendo as potencialidades locais e outras.

 

Que neste caso foram durante séculos o porto e algumas produções agrícolas e a pesca, particularmente quatro armações de atum.

 

Mas o atum afastou-se da costa e as armações, não foram capazes de se adaptarem e desapareceram. As produções agrícolas vitimadas pela política pós entrada na CE diminuíram e a única receita que aumentou foi a relativa ao turismo de sol e praia com uma taxa de sazonalidade enorme.

 

A solução para resolver esta situação desastrosa parecia ser a de aproveitar a maior riqueza potencial desta cidade que é o seu rio, a sua ria e as atividades náuticas e de observação da natureza que tudo isto proporciona, enquadrada por um clima excepcional todo o ano.

 

Para se atingir esse objetivo era e é imprescindível a construção de uma marina nas salinas e portos de recreio em Santa Luzia, Cabanas e junto do forte de Santo António, além doutros projetos menores no rio Gilão e do porto de pesca há muito previsto.

 

Tudo isto foi apresentado há vários anos mas nunca teve qualquer seguimento por parte da Autarquia e do Governo.

 

Entretanto muita da área com boas condições para a produção agrícola foi ocupada com imobiliário e por último foi construído um centro comercial que provocou o fecho de parte do tecido comercial do centro da cidade, passando o domínio desta atividade para os donos do dito centro, o que a transforma numa colónia doutra cidade.

 

Tal como acontece com a maioria dos equipamentos turísticos que pertencendo a pessoas não residentes neste concelho funcionam como numa colónia.

 

E como foi por iniciativa própria e não por conquista vinda de fora trata-se pois de um caso de autocolonialismo.

Porém o que mais me preocupa é que estamos a assistir ao mesmo fenómeno a nível nacional: as empresas de grande porte como a CUF e a Siderurgia e outras foram destruídas pela nossa esquerda durante o PREC e as outras como a Cimpor, a PT, a EDP, a ANA, etc estão a ser vendidas a estrangeiros.

 

E a continuar assim, sem estimular os capitais portugueses a investir em Portugal em breve todo o País será uma colónia sabe Deus de quem: agora sabemos que é a Troika que manda, e depois, quem será?

 

Publicado no DN em 26 de Dezembro de 2013

 

 



publicado por JoseViana às 17:01
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Terça-feira, 5 de Novembro de 2013
Mudança de Governo e mudança de Cultura?

Nestas eleições recentes os eleitores votaram para que houvesse uma mudança de Governo como está regulamentado na Constituição e não parece haver dúvidas que tal mudança era indispensável dado o estado a que o Estado chegou.


O Estado e grande parte da população pois não é apenas o Estado, seja o que depende do Governo central ou o que depende das Autarquias, que está tão fortemente endividado porque uma percentagem elevada da população também se endividou para poder viver acima das suas possibilidades reais nestes últimos vinte e poucos anos.


Sem esquecer a Banca que participou nesta enorme tolice, auferindo durante este período fartos lucros até que, como era previsível para quem estivesse atento e não estivesse interessado nestes lucros, a bolha rebentasse tal como aconteceu em tempos em ponto mais pequeno entre nós e em ponto maior em vários países há três ou quatro anos atrás.


Embora o Governo cessante tivesse responsabilidades inequívocas nesta situação que lhe custaram a sua demissão e a perda das eleições não foi certamente o único responsável pela atual situação em que Portugal se encontra.

Com efeito a causa profunda deste desgoverno que caracterizou a vida nacional desde que entrámos na Comunidade Europeia foi a instalação de uma Cultura, não a que era tratada pelo Ministério respetivo, mas pela que é definida pelos princípios morais, pelos ideais, pelas crenças, pelos preconceitos, pelas atividades e por tudo o que orienta a vida da população, que foi propícia a acontecer o descalabro atual.


Mudar de Governo era fatal e indispensável. E está realizado este primeiro passo para a desejada mudança.

Mas agora o que é preciso é mudar rápida e profundamente essa Cultura de compadrio, de ineficácia, de vaidades e de consumismo, de imediatismo, de tolice, de opacidade política e informativa, de estatismo exagerado, de desvios de finalidade que prejudicavam o País para favorecerem interesses pessoais e/ou corporativos, etc,etc, e que de forma variável, com altos e baixos, assolou este país não apenas nestas últimas décadas mas desde o início da nossa decadência algures no século XVI.


Foi esta Cultura defeituosa que esteve na origem da perda da independência em 1580, na má gestão dos territórios ultramarinos como aconteceu com o Brasil e com os outros mais recentemente, nas tolices que originaram o mapa cor de rosa, e nos factos que conduziram à descolonização e às condições em que acabámos por passar após fazermos parte da Comunidade Europeia.


E como tem sido típico desta Cultura, pouco aberta a análises de situação corretas, a culpa passou a ser da nossa entrada na CEE, porque nós fizemos tudo bem…apenas gastando muito e investindo pouco e mal.


Ora, só analisando bem os nossos comportamentos os poderemos melhorar e não esquecendo que uma consciência tranquila é quase sempre o resultado de uma memória fraca!


Assim sendo, esperemos que esta mudança corresponda ao início da eliminação daqueles fatores culturais negativos e a sua substituição pelos fatores positivos exatamente opostos e, desta forma, possamos não só pagar o que devemos, mas criarmos riqueza sócio-económica e atingirmos o nível de qualidade de vida que há muito desejamos. 


Mas não basta ter mudado o Governo, e ficarmos à espera que “eles”façam tudo. É forçoso que todos, desde o mais humilde cidadão até aos mais ilustres cidadãos incluindo os Autarcas e dirigentes das variadas entidades que formam a estrutura vital do País iniciem imediatamente todas as iniciativas que podem e devem ser realizadas de forma a se criarem os muitos postos de trabalho que tanta faltam fazem e sustentarem os existentes ameaçados, de tal modo que rapidamente desapareçam as muitas bolsas de carências para não dizer de miséria que existem e se crie riqueza sustentada e bem distribuída.


Passando agora para o caso do Sotavento Algarvio é tempo para eliminar os constrangimentos anteriores que têm vindo a atrasar o desenvolvimento desta sub-região tanto das entidades privadas como estatais com responsabilidades particularmente na área do Turismo, das Autarquias e do Ordenamento do Território que têm travado iniciativas essenciais para o seu desenvolvimento sustentado.


Existem vários projetos concretos que continuam nas gavetas de alguns responsáveis e é agora a oportunidade de os lançar com a máxima colaboração das forças vivas que certamente ainda existem mas que têm a obrigação de tomarem as atitudes e as iniciativas que permitam realizar a mudança que está em marcha.


 

Lisboa, 20 de Junho de 2011                José Carlos Gonçalves Viana



publicado por JoseViana às 14:20
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O Algarve e a austeridade

A austeridade que se está iniciando agora é tão criticada principalmente por aqueles que já se esqueceram, ou nunca tiveram a consciência, de que muitos dos chamados direitos adquiridos o foram à custa de dinheiro emprestado, pois, nestas últimas décadas, descurámos a produção e criámos hábitos próprios de gente rica, sem nos preocuparmos como poderíamos sustentar ao longo do tempo tão elevado nível de vida.


Portanto agora, no caso do Algarve, a solução é aproveitar ao máximo a capacidade de “produção” do turismo e para isso os respetivos responsáveis têm que dinamizar esta atividade como aliás tem sido defendido nas páginas deste jornal há bastante tempo.


Esta dinamização tem duas vertentes, que julgo ser importante recordar: uma a elevação do nível do produto turístico incrementando imediatamente as atividades náuticas, que têm uma capacidade de crescimento da ordem dos 100 %, isto é, o dobro da atual, e outras atividades individualmente menores mas no conjunto importantes; outra vertente o incremento das produções agrícola, piscatória e outras de forma a maximizar o valor acrescentado.

Há projetos suficientes para iniciar esta dinamização, mas não tem havido a tomada de decisões que são imprescindíveis, para que se tornem em realizações quer do Governo Central quer, principalmente, dos responsáveis locais sejam eles privados, autarcas, políticos ou corporativos.


Ouvem-se muitos lamentos e chega a dar a impressão que muitos esperam que esta tempestade passe em dois ou três anos e depois volte tudo à mesma, razão pela qual, adotam a posição cómoda da lamentação e da crítica, atirando a responsabilidade da situação atual e da sua solução para outros, sejam eles quem forem, e, como dizia Eça de Queirós julgam poder melhorar, comprando uma cautela e acendendo uma vela a um Santo protetor.


Na verdade é essencial acreditar que a cultura, i.e., as atitudes consumistas, não produtivas e tantas vezes corruptas que se desenvolveram nas décadas passadas, não são para repetir nem são para esquecer, e têm que ser substituídas por eficiência, seriedade, justiça e verdadeira equidade.


Deixem-se pois de lamentações e exigências inconsistentes e discutam, sim, mas não se fiquem pela conversa, e decidam como iniciar já todas as iniciativas que aumentem a produção de bens e a capacidade do produto turístico que é o Algarve; e assim acabem com o desemprego, com as desigualdades e com a escuridão do desalento que sempre surge nestas situações.


Tavira, 25 de Outubro de 2011               José Carlos Gonçalves Viana

 

Publicado no Postal do Algarve em 18 de Novembro de 2011



publicado por JoseViana às 14:04
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O grande equívoco da independência nacional

A polémica levantada pela eliminação do feriado 1º de Dezembro chama a atenção para o título deste artigo. E porquê?


Para responder a esta pergunta importa analisar em que consiste a independência nacional, isto é, como ela se desenvolveu e se consolidou e portanto quais os perigos atuais para a sua manutenção.


É sabido que a principal motivação para uma população querer ser independente, e isto é verdade não só para países mas também, por exemplo, para autarquias, é poder defender os seus interesses com mais eficiência do que depender de um poder afastado ou apenas distraído por outros preferidos.


Também existe outro fator não menos importante que é determinado pela ambição do detentor do poder em desenvolvimento nessa população, a quem logicamente interessa não depender demais do exterior mas antes de si próprio.


Quando de formou o Condado Portucalense em que o seu chefe tinha a ambição natural de aumentar o seu território é óbvio que ele pretendia ser independente mesmo antes da população correspondente começar ela própria a desenvolver a consciência da sua identidade nacional.


É claro que o nosso primeiro Rei constatou de imediato a existência de um fator essencial à sua estratégia de crescimento que era o Mar, até porque do lado interior havia outros reinos em desenvolvimento paralelo que aconselhava a dar prioridade à solução marítima. Ainda por cima reforçada pelo facto de através do mar poder receber reforços essenciais às suas campanhas militares de expansão territorial.


Após a ocupação do território a preocupação independentista virou-se para as pressões vindas do interior no sentido da absorção pelo grande estado aí em formação e a resposta teve que ser outra vez pelo mar através das ligações com o norte da Europa e com o início da expansão marítima oceânica que originou a epopeia dos descobrimentos marítimos, em que Portugal desempenhou o papel de ponta de lança da expansão da Europa, expansão esta que praticamente já acabou, como se pode constatar pelos acontecimentos destas últimas décadas.


Foi depois do reinado do rei D. Dinis que se pode afirmar começar a haver a formação de uma consciência nacional mas só depois dos descobrimentos ela ficou expressa por Camões nos Lusíadas. E como sempre à volta do mar e portanto da marinha.


Depois dos reinados do reis Filipes, que tinham sede em Madrid, Portugal com ajudas poderosas de reinos estrangeiros interessados em combater a influência da Espanha, conseguiu novamente a independência, mas as crónicas dizem-nos que houve muitas povoações que tiveram que ser “convencidas” a aceitar o rei português com alguma veemência.


Aliás estas particularidades locais verificaram-se mais tarde, como aconteceu com o episódio passado como rei D-Luis quando, perguntando aos tripulantes de um pesqueiro que se cruzou ao norte do Porto com o seu iate, se eram portugueses ou espanhóis, teriam respondido que não. Isto é, que eram poveiros.


Porque de facto o nosso poder central nunca cuidou convenientemente da educação da população. Principalmente da que mais afastada está de Lisboa.


A partir do início do século XIX ficámos quase sem marinha e assim também com a nossa independência muito reduzida que só viria a ser melhorada durante a vigência da ditadura salazarista, a qual no entanto acabou por, através dos erros na gestão do ultramar e de não ser capaz de se adaptar ao sistema democrático de governação, de originar uma revolução que abriu o país á liberdade mas que destruiu a sua marinha e obviamente a sua capacidade de ser independente.


Em resumo aqueles que agora tanto clamam por se acabar com o feriado do 1º de Dezembro, e estas vozes têm origens das mais diversas cores poIíticas, nunca clamaram contra a destruição da nossa marinha, nem fizeram qualquer esforço para se alterar o rumo de colisão em que estamos a navegar há pelo menos quarenta anos.


Porque é essencial toda a gente entender que a independência se consegue desenvolver e manter com atividades produtivas essenciais, e no nosso caso a marinha foi e é a principal, e não com comemorações e discursos.


Lisboa, 8 de Fevereiro de 2012

 

José Carlos Gonçalves Viana



publicado por JoseViana às 12:24
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Segunda-feira, 4 de Novembro de 2013
Reflexões revolucionárias

Os dois pontos de partida:


1ºSó a compreensão rigorosa da realidade e do seu próprio comportamento permitirá cada um melhorar e progredir.


2ºDiz-nos a sabedoria antiga que as árvores se conhecem pelos seus frutos.


E as revoluções, tal como as árvores, podem ser avaliadas desde o ponto de vista dos frutos que deram.


Assim as recentes comemorações e alguns acontecimentos a elas ligados levaram-me a pôr no papel estas reflexões, com dois objetivos essenciais: serem uma contribuição para a história do 25 de Abril e simultaneamente para a compreensão da crise que tanto nos aflige agora e afligirá nestes anos próximos, dadas a sua dimensão e a sua profundidade estrutural.


Durante os séculos XIX e XX tivemos várias revoluções, não sei quantas, mas só duas delas tiveram maior impacto e são comemoradas anualmente. A que transformou a monarquia em república em 5 de Outubro de 1910 e a de 25 de Abril de 1974 que transformou a ditadura em democracia.


Em ambas houve atos heroicos e de coragem e atos de desânimo e cobardia, dos primeiros mais em quem ganhou e dos segundos, mais em quem perdeu, pois também aqui se verificou a frase de Damião de Gois “mais vale um exército de ovelhas chefiado por um leão, que um exército de leões chefiado por uma ovelha”.

Passados estes quase quarenta anos sobre 74 podemos analisar com suficiente panorama como ela se processou e quais as principais consequências que dela resultaram e compará-la com a de 1910, com a vantagem de termos vivido esta de perto, digamos mesmo muito perto.


Numa visão muito geral ambas foram mais perdidas por quem detinha o poder que ganhas por quem o quis conquistar, o que tendo as vantagens de haver menos violência no momento da revolução, teve os inconvenientes de provocar um início de regime governativo fraco e sujeito a muitas e variadas conturbações.

Assim em 1910 instalou-se bastante confusão política e natural empobrecimento do país o que provocou outra revolução, a do 28 de Maio, que de seguida instaurou uma ditadura que durou até 74.


O desassossego desapareceu bem como a liberdade, mas grande parte da população aceitou bem a situação com exceção de duas minorias,  havendo numa delas forte presença comunista que inclusive tentou no início da década de 30 um golpe, que pareceu ter como objetivo a ligação unitária com o governo de Espanha.


 Não resultou como se sabe, e daí resultou uma perseguição contínua aos membros deste partido que durou até 74, ainda agravada pelo facto da sua ligação com a União Soviética cujos interesses em África eram contrários aos nossos, como se verificou nas guerras coloniais iniciadas em 1961.


Aliás é curioso o diferente tratamento dado ao nazismo e aos estalinismo, o primeiro de natureza nacional-socialista que praticou atos tremendos e tentou dominar o mundo pela força militar e instalou uma ditadura feroz, o segundo de natureza socialista/ comunista que igualmente instalou uma ditadura feroz e desenvolveu durante várias décadas um plano de expansão de poder protegendo a instalação em vários países de regimes comunistas todos ditatoriais.


Os partidos de natureza nazi são proibidos ou mal aceites, o que não sendo muito democrático no entanto pode ser compreensível, mas os partidos comunistas fizeram uma adaptação ou uma lavagem de certo modo influenciada pelas alterações havidas após a implosão da União Soviética e no fim da influência que esta tinha nesses partidos.


Talvez haja uma explicação mais simples: o nazismo era de origem alemã e a Alemanha perdeu a guerra, enquanto o comunismo era de origem soviética e a União Soviética tinha –a ganho. E os pecados são mais facilmente perdoados aos vencedores.


No entanto quero deixar bem claro, principalmente aos meus amigos que foram ativos combatentes anti-ditadura e que iniciaram estas atividades pertencendo ao partido comunista, que não estou a criticá-los, o que em qualquer caso seria tolice inaceitável, que tal caminho era praticamente inevitável, quanto mais não seja por duas razões: nessa altura ainda não eram conhecidas as atrocidades praticadas por Estaline e a segunda porque me recordo de uma observação feita por meu Pai, alguns meses antes de falecer em 1949, “ vais ver que quando Salazar sair, quem vai tomar conta disto é o partido comunista, porque é o único que ele deixa organizar-se”.


E mais. A evolução verificada nestes últimos anos autoriza-nos a ter esperança em que as virtudes do trabalho e da perseverança superem os aspetos negativos relacionados com as origens e com os desvios que na verdade todos os partidos acabam por praticar durante a sua história.

 

Mas, insisto, todos têm que saber analisar-se neste momento de crise em que praticamente todos têm responsabilidades, embora os que ocuparam os lugares cimeiros sejam os que maior peso de culpas carreguem.


Entretanto, durante o período da ditadura, a liberdade reduzida e a deficiente gestão praticada, em especial nos territórios ditos ultramarinos, não só não permitiu a expansão desejável, como aconteceu com o Acto Colonial e outros erros, que criaram as condições para a eclosão das referidas guerras, como o desenvolvimento que entretanto se verificara após 1945, e havia feito crescer a riqueza nacional até ao seu nível máximo em 1961, alterou-se, e essa riqueza passou a diminuir até ao nível atual, idêntico ao que tínhamos no início do século XX.


Em 1974 num relatório realizado pela PIDE e enviado ao Presidente do Conselho Prof. Marcelo Caetano, muito pouco tempo antes de 25 de Abril, que tive ocasião de ler, embora não tão devagar quanto gostaria, e que depois só uma ou duas vezes ouvi referenciar, pois parece ter desaparecido, apresentava listas dos revolucionários, locais de reunião, etc.,etc.,isto é tudo o que seria necessário e suficiente para destruir o movimento.

 

Mas tinha um despacho exarado pelo Presidente do Conselho no ofício de capa a ele dirigido que dizia algo como:” isto não tem importância, prestem atenção ao General Kaúlza de Arriaga”.


O que significa que só houve o 25 de Abril, como aconteceu, porque o Prof. Marcelo Caetano assim quis, pois tinha toda a informação para fazer abortar o movimento revolucionário. Tal como tinha acontecido com o movimento de Março certamente doutra forma.


Portanto uma vez mais quem estava no poder perdeu e quem ganhou não tinha a coesão e a estrutura preparada para gerir o País de forma eficiente.


Assim imperou a demagogia e as visões ilusórias e/ou propositadas de vários tipos de esquerda que se uniram: uns para combater pelos seus ideais outros para obterem interesses e/ou colocações em lugares desejáveis. E assim se fizeram as mal chamadas nacionalizações de empresas que na verdade foram estatizações, pois nacionais já elas eram, e não houve nenhuma estrangeira afetada, donde resultou a primeira destruição do nosso património produtivo. E obviamente de muitos postos de trabalho que agora tanta falta fazem.


Além desta destruição verificou-se também a destruição do ensino técnico, que embora necessitasse correções tinha propiciado ao País a existência de um corpo técnico do melhor que então havia no mundo.


A segunda destruição maciça deste património veio a dar-se mais tarde quando aderimos à CE e não compreendemos, ou melhor não compreendeu quem nos governava nem a maioria da forças políticas e corporativas que agora tanto protestam contra a situação atual, mas que nessa altura pareciam anestesiados pela fartura de dinheiro fácil que nos invadiu, não reparando que era muito dele a crédito e mais tarde viria a fatura para pagar.


No entanto com o fim da ditadura e abertura ao contacto internacional sem o controle pidesco e alguns preconceitos a menos, houve modernização em muitos aspetos da vida social, artística, política e de bem estar, que só pecou após a adesão à CE porque  se entrou na escalada crescente do endividamento geral e do esquecimento da importância essencial de valorizar a preparação da população com vista a subir rápida e sustentadamente a sua capacidade produtiva de forma a não investirmos em fabricos de baixo valor acrescentado e antes pelo contrário aumentarmos os investimentos de produções de valor mais elevado.


Desenvolvemos tolices como o turismo de sol e praia, privilegiando os níveis inferiores desta atividade ainda por cima com maiores taxas de sazonalidade e diminuímos a produção de bens de consumo, aumentando as importações e diminuindo o valor acrescentado do produto turístico.

Tudo isto agravado pelo endividamento nestes últimos anos em mais de 100 000 milhões de euros dos quais muito pouco em investimentos produtivos, donde resultou a enorme dívida nacional e cuja explicitação ainda não está completada mas de que a maioria da população já está a sofrer as consequências, esperando-se que seja possível, pois desejável é com certeza, conhecer-se todas as suas dimensões e respetivos responsáveis. Quanto mais não seja para tão cedo não se repetir este comportamento suicida.


E tanto ou mais grave, desenvolveu-se uma cultura de consumismo e de direitos adquiridos que seria excelente se não fosse totalmente insustentável a curto e médio prazo.


Com a agravante de se ter desenvolvido uma quantidade considerável, digamos certamente superior a 100 000 de parasitas, isto é, pessoal com funções inúteis, quando não até prejudiciais, que passaram a onerar insuportavelmente o erário público.


Como se esta a verificar.


Por outro lado os investimentos potenciais em várias áreas de atividade que no tempo da ditadura tanto se criticava a sua dependência do poder discricionário dos governantes, continuam a esperar anos, quando não mesmo décadas, como se passa com casos relacionados com o mar, adiando-se sistematicamente a criação de postos de trabalho sustentados, quer do ponto de vista económico como ecológico, como se não fosse essencial para o País poder sair da crise em que se encontra.


Agravando-se ainda mais a corrupção agora mais democratizada e portanto mais generalizada, como se pode ajuizar pelo número de individualidades que saíram do Governo para cargos em empresas que tinham tido negócios de grande porte com o Estado.

 

E repetindo-se a história, a confusão e o caos desta feita não nos deu uma ditadura, porque os tempos são outros, e assim tivemos de recorrer a uma “troika”para não entrarmos em bancarrota, embora aqueles (leia-se políticos e corporativos) que mais contribuíram para esta situação não pareçam ter consciência disto e continuem a realizar as reformas de forma algo titubeante além de muito lenta e não cumprindo todas as normas e os preceitos que são indispensáveis a uma gestão eficiente:


Distinguir o essencial do acessório

O primeiro fator é o pessoal

Haver sempre responsáveis

Basear-se nos pontos fortes e não nos fracos

Tomar decisões efetivas e oportunas

Libertar-se de preconceitos e ideias feitas

Apontar mais para os resultados que para o trabalho


24 de Maio de 2012



publicado por JoseViana às 11:41
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Reflexões sobre a economia do mar em termos de realizações concretas

 

O Plano estratégico apresentado, no que respeita aos aspetos gerais sobre a economia do mar, estou perfeitamente de acordo pois corresponde ao que eu próprio (e outros mais ) também apresentei em 1984 na minha primeira comunicação na Academia de Marinha.


Quanto à parte onde está explicitado todo o trabalho realizado para a expansão da nossa zona atlântica tudo bem apenas julgo valer a pena chamar a atenção para a observação que fiz nessa altura para o facto de o aproveitamento das riquezas existentes nesta zona exigirem empresas de grande porte quer financeiro quer tecnológico que como é sabido nunca tivemos muitas e as poucas, como por exemplo a CUF foram destruídas pelo Prec e por uma Constituição pouco ou nada propícia a tais empresas.


Portanto, tal como está a suceder com a exploração mineira voltamos ao sistema pombalino de ir buscar empresas estrangeiras porque não as há em Portugal.


Mas não é só nas explorações futuras que isto acontece pois quanto a Marinha de Comércio seja de transporte de mercadorias ou seja para cruzeiros também não temos empresas, embora neste último caso parece ter aparecido alguém a iniciar esta atividade o que seria excelente porque receber  estes navios é interessante mas explorá-los é um grau acima na valorização económica e na criação de postos de trabalho.


É claro que na impossibilidade de se repetir um despacho 100 o tempo necessário para recuperarmos uma Marinha de Comércio será de vários anos e as tentativas anteriores nunca deram qualquer resultado para o País.


Mas é possível estabelecer um plano específico parta este objetivo com a convicção de se trata de um plano a longo prazo que inclusive exigirá uma consciência generalizada da população sobre a utilidade da Marinha que não existe e que levará alguns anos a restaurar.


Depois temos a Pesca que foi muito mal tratada nestas três últimas décadas e que necessita de se reestruturar desde a primeira venda, passando por melhoramentos de processos de captura e

Aquacultura.


E por último a marinha de recreio que é onde o atraso é maior mas, talvez também por isso mesmo, onde há mais capacidade de crescimento e de criação de postos de trabalho diretos e indiretos.

Só depois de tudo isto posto em andamento se pode ajuizar quais são as indústrias que podem e devem ser as fornecedoras destas várias marinhas.


Estaleiros para construções navais de grande porte será previsão pouco provável pelo menos por agora pelas razões atrás enunciadas, mas para navios de dimensão mais conveniente talvez possamos recuperar algum do bom pessoal que já tivemos e com gestão apropriada, que não tivemos com frequência, e desde que o enquadramento desta atividade seja revisto e tornado competitivo desde o financiamento até à dinâmica da gestão do pessoal.


Antes de entrar na exposição relativa á náutica de recreio convém recordar nas suas duas facetas: a de negócio ligado ao turismo de alto valor acrescentado, que tem sido desprezado pelos nossos responsáveis pelo turismo nacional, como se viu há dias na BTL onde o prospeto publicado não tinha qualquer indicação sobre náutica de recreio; e a de meio para toda a população poder ter acesso a navegar e assim se desenvolver uma cultura náutica que é fundamental quando se quiser ter proveito a sério da economia do mar.


Quanto à náutica de recreio que tem perspetivas de enorme crescimento, se for dinamizada como nunca foi, haverá lugar para vários construtores navais e de equipamentos como “fingers”, quebramares flutuantes, estacaria etc e aqui é vital para poderem iniciar as suas produções com sucesso e sustentabilidade que haja da parte das entidades que autorizam os projetos de investimento em infraestruturas uma definição muito clara de como serão desenvolvidos de forma as nossas empresas não serem esmagadas pelas importações.


Para já deverão ser evitadas empreitadas de grandes proporções, apenas utilizadas em obras que isso exigem, como é exemplo o fecho da golada do tejo e particularmente nas zonas lagunares onde as infraestruturas portuárias são frequentemente destinadas a entidades locais de pequenas dimensões.


Aliás é oportuno chamar a atenção para o desenvolvimento a realizar nas zonas lagunares dever ser muito rigoroso nos meios de construção a utilizar pois não devem ser consentidos o betão e a pedra mas apenas estacas e equipamentos flutuantes que evitem sobrecargas e ou perturbem as movimentações naturais dos solos lagunares.


As rampas de acesso à água deverão ser em terra batida e nunca em betão.


Obviamente estuários como o do tejo, do sado, etc exigem que os rios correspondentes tenham as suas margens devidamente protegidas para evitar não só a destruição dos terrenos erodidos como também o seu excessivo assoreamento.


Por isto tudo é forçoso que os serviços do estado a quem compete esta função se desempenhem corretamente destas obrigações, incluindo as dragagens de manutenção, deixando às entidades que vão explorar os portos de recreio os trabalhos necessários à sua atividade de acordo com normas de qualidade indispensáveis.


Lisboa, 20 de Agosto de 2013

 

José Carlos Gonçalves Viana



publicado por JoseViana às 11:13
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