Terça-feira, 29 de Novembro de 2011
Manifestações da Marinha Portuguesa na obra de Eça de Queirós

Para cumprir o que consta do título desta comunicação terei que começar por esclarecer, embora, fiquem descansados, de forma muito resumida, o que é de facto o Mar e a Marinha Portuguesa pois esta, nestas últimas décadas tem sofrido inúmeras dificuldades, que colocam a situação actual a nível idêntico ao que se verificava durante quase todo o século XIX.

 

E para iniciar esta pequena viagem virtual devemos esclarecer em que consiste o Mar a que me referirei, pois não é a enorme massa quase toda de água salgada que ocupa cerca de dois terços da superfície do nosso planeta, mas sim as actividades que ele propicia e tanta influência tiveram no nascimento e no desenvolvimento de Portugal.

 

Com efeito o nosso país não nasceu como os românticos do século XIX defendiam da herança dos antigos lusitanos mas de um conjunto de circunstâncias como diria Ortega y Gasset, pois não nasceu mas criou-se a partir de um núcleo de pessoas que queriam ser independentes e que tinham de vencer uma quantas forças adversas, como sejam a sul o poder dos mouros, a nascente e a norte os vários reinos ai em desenvolvimento e a poente o oceano atlântico.

 

 

As ordens de Cristo e de Santiago, os judeus constituintes da burguesia de Lisboa e do Porto, e os pescadores, foram a base que permitiu o desenvolvimento progressivo da Marinha Portuguesa que desde D.Dinis passou a funcionar da forma a que a moda inventada por Michael Porter denominou de cluster e que incluía as marinhas de guerra, de comércio e de pesca e além disto a construção naval, as técnicas de navegação e a cartografia e assim os Portugueses ganharam enorme avanço sobre os outros países europeus e realizaram os descobrimentos iniciando a globalização.

 

O interesse pelo mar passa então a ser de facto expresso pela força da Marinha, esta como conjunto das actividades que permitiam aproveitar todas as potencialidades do mar-oceano.

 

Assim a Marinha Portuguesa foi até início do século XX gerida pela Armada que acumulou, logicamente, a gestão das colónias.

A partir daí as colónias passaram a depender de um ministério específico e em 5 de Julho de 1974 acabou o tal cluster e a Armada ficou apenas com actividade militar e científica. Actualmente quase não temos marinha mercante, menos pesca do que já tivemos e marinha de recreio incipiente tendo como resultado disto um desaproveitamento do nosso mar e pior que isso uma população alheada da marinha como se pode apreciar pelo vazio do mar da Palha, do estuário do Sado, do Sotavento Algarvio, etc

 

O período em que Eça de Queirós viveu e que tão bem analisou e retratou ficou caracterizado, no que respeita à Marinha Portuguesa por dificuldades causadas pela herança das perturbações causadas, primeiro pela deslocação da frota nacional para o Brasil, fugindo das tropas de Napoleão, donde não mais regressou, depois pelas sucessivas invasões francesas, pela guerra civil e finalmente pela instabilidade política de que veio a resultar o regicídio e o fim da monarquia.

Tudo isto agravado pelo atraso da nossa indústria e das nossas elites dominantes em relação ao desenvolvimento dos países mais avançados da Europa que se pode cifrar entre 20 a 50 anos conforme as actividades que sejam consideradas.

 

 

Não admira pois que a Marinha tenha pouca contribuição em produzir personagens com interesse para serem tratadas por ele com grande desenvolvimento, porque deixou de ser o pilar essencial da vida nacional como tinha sido nos séculos XV e XVI.

 

E passo a citar uma passagem de “ O Conde de Abranhos”

“Portugal sabe bem que o ministério nacional durou dois anos e o que foi a administração do Conde de Abranhos nos negócios da Marinha e Ultramar.

Dois serviços que se completam e vivem um pelo outro – as Colónias e a Armada- constituem esse ministério, e, em ambos eles, Alípio Abranhos deixou os esplêndidos vestígios do seu génio administrativo. E notai que o conde não era, como vulgarmente se diz, um homem do ofício. Até à idade de vinte e um anos – em que nas férias do ponto, fez uma visita à praia pitoresca de Buarcos – nunca tinha visto o mar. E esse formidável elemento, que cobre as quatro quintas partes do globo – mundo de trevas e de mistério, juncado de destroços, asfixiador, hostil ao homem – deu-lhe uma impressão que, segundo ele me disse, com aquele vigor pitoresco da sua frase, lhe fizera eriçar todos os cabelos do corpo.

 

Sempre detestou o mar, e se alguma vez passou a estação calmosa em Cascais, foi unicamente em respeito aos deveres sociais da sua posição no País, ou para comprazer com D. Virgínia e depois com sua segunda mulher, a respeitável Condessa de Abranhos. Tal era esta repugnância, que o Conde de Abranhos nunca visitou a Inglaterra, porque, sendo esse grande país dos Pitts e dos Chaucers infelizmente uma ilha, não lhe era possível visitá-lo sem embarcar: e o horror do conde aos navios era invencível.

Era mesmo um sacrifício grave, quando as suas altas funções o forçavam a visitar algum navio de guerra. De resto, a mesma paisagem marítima – essa infinidade de água azul – causava-lhe, como ele dizia »um peso estúpido na cabeça», e é portanto mais para admirar que, com esta antipatia pelo mar e por tudo que dele vive ou nele trabalha, dirigisse as repartições da Marinha com tão grande brilho.” fim de citação.

 

E agora cito mais alguns excertos de “Uma campanha alegre”

 “As nossa colónias são originais neste sentido: que o único motivo por que são nossas colónias – é o não estarem situadas na Beira. Porque não nos dão rendimento algum: nós não lhes damos um palmo de melhoramento: é uma luta… de abstenção!

-Não, exclamam elas com o olhar voltado de revés para a Metrópole, não! Menos rendimento que este ano, que é nenhum, não és capaz de nos pilhar, malvada!

-Também, responde obliquamente a Metrópole, também, celeradas , em maior desprezo, não sois vós capazes de estar!

Santa cordialidade de relações! Às vezes a Metrópole remete-lhes um governador, agradecidas, as colónias mandam à mãe pátria – uma banana. É vendo esse grande movimento de interesses e de trocas que Lisboa exclama:

-Que riqueza a das nossas colónias! Positivamente, somos um povo de navegadores!

 

……..e depois de várias considerações sobre os Açores e as colónias de África que acabam como a seguir se apresenta passa a analisar a nossa Marinha :

Que o país despreza as colónias; que elas estão abandonadas a uma frouxa iniciativa particular, sem estímulo, sem protecção, sem tranquilidade; que a iniciativa é excelente mas só pode desenvolver-se num país bem policiado: que nas colónias não há garantias de segurança, nem tranquilidade, que não há melhoramentos, nem protecção ao comércio, nem exército, nem higiene, nem instrução; que tudo ali vive na desordem, na desorganização, no desleixo, e numa antiquíssima rotina: e que o único movimento que há é o do estrangeiro que as explora de facto – apesar de nós as possuirmos de direito.

Mas, meus senhores, antes de tudo, nós não temos marinha. Singular coisa! Nós só temos marinha pelo motivo de termos colónias - mas justamente as nossas colónias não prosperam porque não temos marinha! A nossa marinha, ausente dos mares, sulca profundamente o orçamento. Gasta 1 159 000$00!

Que realidade corresponde a esta fantasmagoria das cifras? Uns poucos de navios, velhos, decrépitos, defeituosos, quase inúteis, sem artilharia, sem condições de navegabilidade, com cordame podre, mastreação carunchosa, e história obscura. É uma marinha inválida. A D. João tem 50 anos; o breu cobre-lhe as cãs: o seu maior desejo seria ser barca de banhos.


Não vou ler-vos as quatro páginas seguintes porque não há tempo e são de tal modo bem analisadas e repassadas de ironia e de tudo aquilo que só Eça sabia escrever, que também me causam profunda amargura pelo nível cultural e político em que se encontrava a sociedade portuguesa dessa época, embora tivesse produzido um Eça, talvez porque Deus, condoído, o tivesse feito como consolação e como pregador do que havia a corrigir para voltarmos de facto ao mar e ao progresso.

 

Para terminar quero chamar a vossa atenção para o facto de Eça de Queirós ser ele próprio um testemunho do pouco interesse que Portugal tinha pela Marinha pois não só não tratou nas suas obras de personagens a ela ligadas mas ao escrever uma nota do mês para a Revista de Portugal sobre a morte do Rei D. Luís nela não dá qualquer indicação das suas actividades marítimas embora ele tenha dado, inclusive, grande apoio à formação da Sociedade de Geografia de Lisboa que, como se sabe teve papel essencial na luta pela soberania portuguesa no ultramar.

 

Isto não significa qualquer diminuição do seu valor como escritor e pensador, antes pelo contrário revela o seu posicionamento central na sociedade portuguesa da sua época com a consciência plena da situação existente, como se pode ver nas citações atrás apresentadas mas, obviamente sem possibilidade prática de concretizar um movimento regenerador da Marinha Portuguesa que só seria realizado em 1945 com o conhecido despacho 100 do então ministro da Marinha Cte Américo Tomás.

 

Apresentado no Colóquio dos Olivais na Escola Eça de Queirós em 18 deNovembro de 2010

 

 

 

 

 



publicado por JoseViana às 22:43
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