Quinta-feira, 21 de Maio de 2015
Atividades portuárias e transportes marítimos no Algarve

Antes de iniciar a minha intervenção quero agradecer ao Governador do Lions Dr. Américo Marques o convite para estar aqui presente para tratar um tema que me é especialmente querido e relativo a este antigo reino dos Algarves a que estou fortemente ligado desde há sessenta anos e apresentar os meus cumprimentos ao Senhor Reitor da Universidade de Faro e à Senhora Professora Drª Maria João Bebiano e às demais entidades presentes.

1- Nota introdutória

Antes de iniciar o tema correspondente ao título desta comunicação quero explicar-vos muito resumidamente a minha posição neste assunto da Economia do Mar: comecei a dedicar-me a ele em 1984 quando fui admitido como membro da Academia de Marinha e da Sociedade de Geografia de Lisboa, depois de ter sido a partir de 1971 Administrador da Insulana e da CTM, Secretário de Estado da Marinha Mercante de Julho de 1974 a Março de 1975, Secretário de Estado das Pescas no Governo da AD e Presidente da Soponata de 1983 a 1991.

Nessa altura houve um núcleo de interessados, dos quais a maioria já faleceu, que tentaram a recuperação da nossa Marinha, entendida como o conjunto da Armada e das Marinhas Mercante, das Pescas e de Recreio, na verdade um autêntico “cluster” que desde D. Dinis controlava a nossa economia do Mar e que foi destruído organicamente em 74, perante o desprezo e a indiferença dos responsáveis políticos e corporativos com os resultados de todos conhecidos.

De facto nunca teria sido possível termos conseguido realizar os descobrimentos sem esta Marinha e só a partir de 2004 com a chegada de novos interessados no Mar se passou a falar de Economia do Mar mas sem haver qualquer preocupação ativa em recuperar a Marinha.

Aliás onde a estrutura governativa coloca as decisões relativas à economia da Marinha de Comércio e da Marinha de Recreio, esta principalmente através do Turismo, explica a discrepância entre os progressos científicos e políticos realizados pela Secretaria de Estado do Mar no que respeita ao alargamento da nossa zona atlântica e o pouco ou nada que tem acontecido nas atividades dependentes das Secretarias de Estado dos Transportes e do Turismo.

Portugal quando teve uma Marinha poderosa era independente e central, sem ela é dependente e periférico.

Para Portugal o Mar sem Marinha é pouco mais do que paisagem.

Por outro lado a principal preocupação atual é, ou deve ser, a criação de postos de trabalho com o máximo valor acrescentado possível e preferencialmente com característica exportadora e exigindo pouco ou nenhum encargo para o Estado.

Os investimentos deverão ser preferencialmente realizados por privados mas é essencial que o Estado tome as decisões de forma operacional, para não continuarmos no velho sistema do condicionamento salazarista que me levou em tempos idos a afirmar que se Edison tivesse nascido em Portugal nunca teria inventado as lâmpadas, pois ao pedir a necessária autorização, esta ser-lhe-ia negada porque o Governo não sabia o que isso era.

Antes de passar ao capítulo seguinte não quero esquecer uma nota otimista recordando dois exemplos que demonstram que temos capacidade de atingir a excelência em Marinha: os caiaques do Nelo de Vila do Conde e os navios de cruzeiros do Douro.

2 -Interpretação do título de forma a explicar a apresentação de projetos já expostos e do que mais há a fazer para contribuir de facto para sairmos desta crise

O título desta comunicação aponta duas áreas de atividade que importa analisar a começar pela segunda ou seja pelos transportes marítimos realizados pela Marinha de Comércio, pela razão simples que não só é a que mais tempo precisa para ser corrigida mas também é a que menos postos de trabalho poderá criar rapidamente.

 Mas outros tipos de transporte marítimo há que permitem ultrapassar aqueles inconvenientes e que são praticados em parte pela Marinha de Recreio.

Assim as atividades portuárias mais atrativas serão as destinadas a receber navios de cruzeiros e as utilizadas pelas embarcações de recreio.

Ao contrário da Marinha de Comércio o transporte marítimo realizado pela Marinha de Recreio tem um potencial de desenvolvimento muito elevado no Algarve mas que por isso merece alguns esclarecimentos dadas as várias confusões que tive ocasião de constatar durante o período em que fiz parte da Direção da Associação do Sotavento Algarvio.

E que passo a indicar sumariamente: os portos de recreio e as marinas devem permitir não só a utilização de embarcações de maior valor e portanto com contribuições mais volumosas mas é essencial a existência de instalações que permitam não só o ensino das artes de navegar aos jovens mas também a prática da navegação a quem tem menos capacidade de pagar elevadas quotas para frequentar as marinas.

Também é importante que os responsáveis pelos atuais empreendimentos náuticos entendam que a existência de mais empreendimentos ao longo da costa algarvia não só não os prejudica como antes pelo contrário aumenta a valorização do conjunto que peca agora ainda pela sua pequena dimensão.

 Sugere-se que se melhore o conhecimento desta atividade observando o que acontece nos principais centros náuticos nos vários países como quase todos os europeus, americanos, australianos, neozelandeses, etc bem mais desenvolvidos que nós, embora tenham começado a navegar muito mais tarde, quando tínhamos a melhor marinha da europa.

De facto a Marinha de Recreio tem áreas distintas que convém recordar: o turismo náutico de alto nível (de passagem e residencial), idem de nível médio, a pesca desportiva, com devolução do pescado ao mar, em embarcação própria ou em embarcação alugada com/ou sem arrais, o mergulho para ver e fotografar nas zonas onde o mar for propício, desportos com reboque, regatas de vela, remo e motor,etc…e tendo em conta o clima algarvio que permite quase cem por cento de prática ao longo do ano.

Ao contrário da tolice que foi o sol e praia que deu o desgaste de tanta beleza desta costa bem como provocou enorme taxa de sazonalidade.

Não podemos esquecer que o principal fator da competitividade é o humano. O que significa que se quisermos ter uma atividade náutica de valor elevado teremos que ter não só a mão de obra direta com a melhor preparação, mas todo o ambiente de enquadramento imbuído do espírito náutico, o que só se consegue se houver muitos praticantes náuticos em toda a população.

Para que isto seja possível há que rever todos os planos que de vez em quando aparecem, de forma a evitar o que tem acontecido com frequência: obras realizadas de forma incorreta usando betão e pedra em zonas lagunares como foi o caso da doca do Ginásio e do plano inclinado do Clube Náutico em Tavira, ou construindo caminhos para se ver o mar mas nada fazendo para se navegar nesse mar, como está a acontecer com o plano Polis, gastando-se verbas avultadas que criam muito poucos postos de trabalho e nenhum desenvolvimento náutico.

3- Alguns projetos e sugestões concretas

Apenas como exemplos, alguns deles já propostos há muitos anos mas sempre esquecidos ou contrariados, pois há mais potencial a aproveitar.

3.1-Aproveitamento com a máxima qualidade ambiental do estuário do Rio Arade até Silves

3.2-Melhoria da gestão da Ria Formosa que durante muitos anos era conhecida por nada autorizar mas tudo consentir. Se agora já está corrigida ainda bem, mas pelo que se vê não parece. É desejável que os respetivos responsáveis se convençam que o desenvolvimento não só é compatível com elevada qualidade ambiental mas também é neste campo igualmente exigente dela, pois só assim se poderão motivar os clientes mais importantes, isto é, os que mais lucros darão ao País.

3.3-Reestruturação da zona das Quatro Águas em Tavira, com a restituição de toda a zona da Ria afetada pelos assoreamentos causados pela forma deficiente como foram realizadas as obras da barra e que a Ria Formosa nunca cuidou de corrigir, a construção de uma marina que está planeada há mais de dez anos com os devidos acertos, aliás parte deles já discutidos oficialmente há mais de dois anos, e de um porto de abrigo junto ao forte do Rato bem como dos postos de atracação a montar em Cabanas e em Santa Luzia depois de serem desassoreados os canais de navegação.

3.4-Embora não seja matéria portuária também será conveniente implantar mais recifes artificiais que tem grande influência na rentabilidade da pesca local.

3.5-Construção de uma marina aproveitando o facto de haver um molhe de cerca de 1,5 km na foz do Guadiana, em má hora construído, mas agora muito útil para aí a instalar, destinada a dotar Vila Real de Santo António de uma unidade náutica de grande capacidade (cerca de 2000 p.a.) que terá forte impacto na redução do fator de  sazonalidade local e permitirá ter uma zona para a náutica popular.

3.6-Construção de uma marina de grande dimensão, também mista, popular e mais alto nível residencial, em Castro Marim (cerca de 2000 p.a.)

3.7-Construção de marinas “off shore” em Vale de Lobo e na Quinta do Lago o que permitirá a defesa da costa e subir o nível da qualidade destes empreendimentos.

Para terminar faço votos de que estando nós em período eleitoral, os eleitores saibam pressionar os candidatos a se comprometerem, se ganharem as eleições, a fazerem como fez D.João II, que em dez anos nada escreveu mas as decisões que tomou e o que realizou deram a Portugal a Marinha mais poderosa dessa época e colocaram os portugueses em todo o mundo.

Em vez de falarem e escreverem muito, o que não chega para se criarem mais alguns milhares de postos de trabalho que tanta falta fazem e para se contribuir para a recuperação da nossa Marinha, que tão importante é para a independência nacional, que nestes últimos trinta anos tão maltratada tem sido.

Bem hajam pela vossa atenção.

Lisboa, 15 de Maio de 2015



publicado por JoseViana às 18:09
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1 comentário:
De francisco g. de amorim a 26 de Maio de 2015 às 14:43
Os algarvios sempre foram homens de luta. Machos. Destemidos.
Será que ainda são e vão encarar essas propostas com o vigor que lhes era caracteristico?
Deus permitazv5zgse


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