Vivemos quase trinta anos, com mais rigor desde que entrámos na Comunidade Europeia, como se tivéssemos um cavalo, bom e caro, e agora quase todos os cidadãos e principalmente sindicalistas e políticos reclamam pois não aceitam passar a andar de burro. Isto de passar de cavalo para burro, nunca!
E vai daí escreverem, falarem, reunirem-se na rua a protestar contra as medidas em curso, inclusive ameaçarem fazer greves, que contribuirão fatalmente para aumentar a pobreza quer pelos seus custos, mas também, como se pode ver o que acontece na Grécia, reduzindo as receitas resultantes do turismo em geral e deles próprios também, e apenas propõem que se aceite a bancarrota, que resultará fatalmente se não conseguirmos vencer esta primeira fase da indispensável reestruturação do país pagando entretanto o que devemos.
Mas teimam em esquecer-se que o tal cavalo bom e caro que montaram todo este tempo era pago a crédito e nunca se lembraram que era preciso produzir mais riqueza, pelo menos suficiente, para o poderem pagar.
E agora veio a fatura, porque o crédito atingiu o máximo aceitável e o poder passou para os credores, e como sempre acontece nestes casos, ou se muda de vida e se trabalha para saldar as dívidas ou se entra em bancarrota, e aí é a miséria garantida com todo o cortejo de desgraças inerentes, sabe-se lá por quanto tempo, pois criámos uma situação interna tal, que nem produzimos o suficiente para pagar a comida que tanto gostamos de ter, nem sequer a do burro com que ficámos.
E estas dificuldades, ainda por cima acrescentadas por uma crise internacional, foram essencialmente causadas por erros de gestão sucessivos e outras anomalias, imputáveis não só aos governantes mas também a muitos cidadãos, que levaram à destruição da nossa capacidade produtiva, ao aumento exageradíssimo da dependência da nossa vida económica do estado, quase sempre desprezando a avaliação do mérito em favor de compadrios políticos e pessoais, e ao atraso em que estamos no aproveitamento das nossas potencialidades reais.
Portanto agora temos que pagar o suficiente já, para voltarmos a ter o crédito, que já tivemos e que malbaratámos como é sabido, e sem o qual não poderemos crescer, isto é, acelerar o nosso desenvolvimento sustentado, de forma a voltar a montar um cavalo em vez de um burro, mas desta feita pago a pronto e podendo sustentá-lo sem pedir dinheiro emprestado.
O que passa também por reestruturarmos o nosso Estado de forma a ser mais eficiente e menos pesado no bolso dos contribuintes porque a competitividade do país e a sustentabilidade das instituições essenciais só voltará a subir, pois há muitos anos que só tem diminuído, quando este peso for muito inferior ao atual.
O que vai levar alguns anos a conseguir realizar porque este tipo de mudanças, em democracia, têm que ser lentas, isto é, não se fazem em dois ou três anos, porque afetam a Cultura mais profunda de uma população e exigem a existência de elites dominantes de elevado grau de qualidade. Tal como sucedeu na época de oiro da nossa história com D. João I, mas que não é o nosso estadio atual.
No entanto não faltam oportunidades para muitos investimentos produtivos sem recorrer ao financiamento pelo Estado mas que exigem dos Governantes decisões corretas em tempo útil o que não se tem verificado desde há muitos anos.
Será possível vermos agora acontecer esse autêntico milagre de aparecer uma elite que consiga unir as principais tendências políticas nesta mudança de Cultura e assim darmos o salto qualitativo e quantitativo que nos permita sair desta situação em que caímos, por não a ter tido durante estas últimas décadas?
Lisboa, 18 de Outubro de 2011
Nunca foi publicado, foi só um desabafo!