Cumprir Portugal é uma frase que lembra logo Fernando Pessoa.
A um poeta no entanto ninguém se preocupa em perguntar-lhe como é que ele seria capaz de atingir tal objetivo, nem a analisar outras afirmações que tenha apresentado sobre este tema.
Mas quando a mesma frase sai da boca de um Primeiro Ministro a situação é exatamente inversa, pois espera-se que ele explique como é que está previsto e planeado o caminho para tal objetivo ser atingido.
E então numa ocasião como a atual em que o País se debate com uma crise iniciada há cerca de trinta anos, que resultou em grande parte da destruição durante este período de uma parte importantíssima do nosso aparelho produtivo e de segurança, como foi o caso da Marinha (entendida como o conjunto da Armada e das Marinhas de Comércio, de Pesca e de Recreio), de indústrias metalo-mecânicas?
E obedecendo ao que está estipulado na nossa Constituição (e que parece ninguém querer alterar) contra a existência de grandes empresas só se fala em PMEs, e ainda ao facto de algumas das poucas empresas que ainda restam com alguma dimensão estarem agora à venda a compradores estrangeiros?
Depois do trabalho brilhantemente realizado pela “Missão para a extensão da plataforma continental” podemos ter ao nosso dispor uma enorme potencialidade de riquezas nos fundos e no subsolo do “nosso” Atlântico.
Mas para isto ser possível é indispensável termos empresas portuguesas como por exemplo em Marinha de Comércio, no fabrico dos equipamentos necessários à exploração dos fundos do oceano, no tratamento das matérias primas e na sua transformação em produtos comerciais. Todas empresas grandes.
Aliás nada disto é novo pois pelo menos a partir de 1984 tanto na Academia de Marinha como na Sociedade de Geografia foram estes assuntos levantados e discutidos.
Diga-se de passagem sem qualquer manifestação de interesse pela maioria esmagadora dos responsáveis políticos e corporativos.
E agora assistimos a serem empresas estrangeiras que vêm explorar minérios, comandar a produção de energia, transportar os turistas que nos interessa receber. Etc etc. e até empresas portuguesas de elevada dimensão mudam as suas sedes para outros países porque o nosso não dá condições operacionais aceitáveis, criando assim um novo conceito que é a auto-colonisação.
Temos enormes potencialidades de criação de postos de trabalho na Marinha de Recreio e em reuniões recentes ficou patente que o maior obstáculo a este desenvolvimento é o Estado, ou seja na prática o Governo por não tomar a decisões necessárias.
Perante tudo isto temos que perguntar ao Senhor Primeiro Ministro: como é que decide resolver este impasse?
Ou iremos assistir a um novo e enorme mapa cor de rosa?
E depois, naturalmente, culpando a Srª Merkel e a Europa de não nos darem tempo para nos prepararmos devidamente.
Lisboa, 28 de Novembro de 2012
Publicado no DN em 7 de Dezembro de 2012