A polémica levantada pela eliminação do feriado 1º de Dezembro chama a atenção para o título deste artigo. E porquê?
Para responder a esta pergunta importa analisar em que consiste a independência nacional, isto é, como ela se desenvolveu e se consolidou e portanto quais os perigos atuais para a sua manutenção.
É sabido que a principal motivação para uma população querer ser independente, e isto é verdade não só para países mas também, por exemplo, para autarquias, é poder defender os seus interesses com mais eficiência do que depender de um poder afastado ou apenas distraído por outros preferidos.
Também existe outro fator não menos importante que é determinado pela ambição do detentor do poder em desenvolvimento nessa população, a quem logicamente interessa não depender demais do exterior mas antes de si próprio.
Quando de formou o Condado Portucalense em que o seu chefe tinha a ambição natural de aumentar o seu território é óbvio que ele pretendia ser independente mesmo antes da população correspondente começar ela própria a desenvolver a consciência da sua identidade nacional.
É claro que o nosso primeiro Rei constatou de imediato a existência de um fator essencial à sua estratégia de crescimento que era o Mar, até porque do lado interior havia outros reinos em desenvolvimento paralelo que aconselhava a dar prioridade à solução marítima. Ainda por cima reforçada pelo facto de através do mar poder receber reforços essenciais às suas campanhas militares de expansão territorial.
Após a ocupação do território a preocupação independentista virou-se para as pressões vindas do interior no sentido da absorção pelo grande estado aí em formação e a resposta teve que ser outra vez pelo mar através das ligações com o norte da Europa e com o início da expansão marítima oceânica que originou a epopeia dos descobrimentos marítimos, em que Portugal desempenhou o papel de ponta de lança da expansão da Europa, expansão esta que praticamente já acabou, como se pode constatar pelos acontecimentos destas últimas décadas.
Foi depois do reinado do rei D. Dinis que se pode afirmar começar a haver a formação de uma consciência nacional mas só depois dos descobrimentos ela ficou expressa por Camões nos Lusíadas. E como sempre à volta do mar e portanto da marinha.
Depois dos reinados do reis Filipes, que tinham sede em Madrid, Portugal com ajudas poderosas de reinos estrangeiros interessados em combater a influência da Espanha, conseguiu novamente a independência, mas as crónicas dizem-nos que houve muitas povoações que tiveram que ser “convencidas” a aceitar o rei português com alguma veemência.
Aliás estas particularidades locais verificaram-se mais tarde, como aconteceu com o episódio passado como rei D-Luis quando, perguntando aos tripulantes de um pesqueiro que se cruzou ao norte do Porto com o seu iate, se eram portugueses ou espanhóis, teriam respondido que não. Isto é, que eram poveiros.
Porque de facto o nosso poder central nunca cuidou convenientemente da educação da população. Principalmente da que mais afastada está de Lisboa.
A partir do início do século XIX ficámos quase sem marinha e assim também com a nossa independência muito reduzida que só viria a ser melhorada durante a vigência da ditadura salazarista, a qual no entanto acabou por, através dos erros na gestão do ultramar e de não ser capaz de se adaptar ao sistema democrático de governação, de originar uma revolução que abriu o país á liberdade mas que destruiu a sua marinha e obviamente a sua capacidade de ser independente.
Em resumo aqueles que agora tanto clamam por se acabar com o feriado do 1º de Dezembro, e estas vozes têm origens das mais diversas cores poIíticas, nunca clamaram contra a destruição da nossa marinha, nem fizeram qualquer esforço para se alterar o rumo de colisão em que estamos a navegar há pelo menos quarenta anos.
Porque é essencial toda a gente entender que a independência se consegue desenvolver e manter com atividades produtivas essenciais, e no nosso caso a marinha foi e é a principal, e não com comemorações e discursos.
Lisboa, 8 de Fevereiro de 2012
José Carlos Gonçalves Viana