Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
Dois comentários ao OGE para 2019

1º Governar é gerir e a gestão eficiente significa estabelecer objetivos, realizá-los e numa democracia ser avaliado pelos eleitores e assim ser reeleito ou não. Ora a gestão implica analisar o passado recente e conjugar o futuro desejado que pode depender de nós com o futuro que não depende de nós e, conhecendo bem a nossa realidade, tomar as decisões que otimizem a nossa vida atual e a nossa sobrevivência. Algumas dessas decisões referem-se a períodos mais alongados que um ano e, portanto, é indispensável a existência de um plano de atuação concreto, i.e. sem enunciados de intenções, como acontece neste OGE, mas só com projetos bem especificados e orçamentados. 2º As folhas relativas ao Mar são o exemplo do que atrás se criticou mas com a gravidade acrescentada de neste orçamento só se indicarem intenções e não haver qualquer concretização devidamente orçamentada. Além do erro sistemático em os interessados no Mar não entenderem que, para se tirar proveito dele, tem que se começar por ter uma Marinha (Armada e Marinhas de Comércio, Pescas e Recreio) eficiente. Sem ela o Mar pouco mais é que paisagem, sem esquecer as salinas e o surf… E já agora sugerir acrescentar ao compromisso dos Governantes quando tomam posse a palavra eficiência. Lisboa, 22 de outubro de 2018 José Carlos Gonçalves Viana



publicado por JoseViana às 15:13
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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2018
A revolução mais importante para a Marinha Portuguesa que ainda falta comemorar

Um dos fatores que mais pesa quando se quer avaliar a importância de uma revolução é analisar o que aconteceria se dos pontos de vista nacional e internacional o resultado dela fosse exatamente o contrário do que foi.

Em Portugal atualmente comemoramos três revoluções: 1 de dezembro de 1640, 5 de outubro de 1910 e 25 de abril de 1974.

Em 1640 se não tivéssemos recuperado a independência Portugal teria ficado a ser apenas uma região espanhola, a língua portuguesa teria diminuído ou até quase desaparecido e internacionalmente a Espanha ganharia poder em relação a França e Inglaterra com quem estava então em guerra.

Em 1910 a mudança de monarquia para república não teve consequências importantes do ponto de vista internacional e a gestão do nosso País não melhorou o suficiente para evitar o descalabro económico que veio a provocar a ditadura do Estado Novo e se tivessem ganhado os monárquicos muito provavelmente teria acontecido algo idêntico ao que aconteceu.

Em 1974 a mudança efetuada em condições idênticas a 1910, isto é, o poder foi mais perdido por quem o detinha que ganho por quem se revoltou, trouxe ao País a liberdade que não havia tanta e melhores relações internacionais mas, do ponto de vista de gestão, houve várias crises próximas da bancarrota que deterioraram a nossa independência e se se tivesse mantido o Estado Novo com algumas alterações provavelmente a evolução não seria muto diferente do que aconteceu mas com menos liberdade.

Ora na nossa História houve outra revolução, a de 1383-85, que merece ser analisada mais profundamente pois por detrás dela está a formação do país Portugal e do cidadão português que não existiam antes de o Príncipe Afonso Henriques decidir ser Rei, para o que era indispensável criar um reino, conquistando o território a sul ocupado pelos mouros e defender-se do poder dos reis vizinhos de origem visigótica cuja tendência para a unificação era fatal.

Portanto era preciso conquistar rapidamente Lisboa, o que aconteceu e desenvolver as atividades marítimas já existentes há séculos uma vez que todo o tráfego entre o Mediterrâneo e o norte da Europa passava pela nossa costa, e dadas as características dos ventos e a pequenez das embarcações, havia enorme interação de tripulantes e habitantes dos vários portos então existentes.

Assim procederam os reis seguintes, com especial relevo D. Afonso III e D. Dinis, que muito fortaleceram a burguesia onde havia elevada percentagem de judeus originados de Alexandria onde se tinha mantido o conhecimento científico e tecnológico grego-romano que entretanto a Europa medieval tinha esquecido, sendo notável terem no cômputo geral da dinastia praticado uma gestão pró-ativa e inclusiva, como aconteceu na dinastia seguinte até à morte de D. João II. Como exemplo desta disparidade basta recordar que em Alexandria, quase dois séculos antes de Cristo, Eratóstenes havia determinado ser a terra uma esfera e qual o seu diâmetro enquanto nos finais do século XV ainda na Europa central se pensava ser a Terra uma superfície plana!

Assim quando em 1383 morre o Rei D. Fernando I deixando como herdeira a sua filha Beatriz, casada com o Rei D. João I de Castela, houve a possibilidade de este passar a ser também rei de Portugal.

Mas embora a maioria da nobreza de origem visigótica estivesse de acordo com esta solução aconteceu uma revolução suportada essencialmente pela burguesia marítima e tendo como candidato a Rei o Mestre da Ordem de Avis de nome João e filho bastardo do Rei D. Pedro I, que tendo vencido permitiu em 6 de abril de 1385 coroá-lo como D. João I.

Em primeiro lugar teve que consolidar a independência do país, com o apoio fortíssimo de D. Nuno Álvares Pereira, o que significou só ter disponibilidade para iniciar a expansão marítima em 1415 com a conquista de Ceuta quando os filhos mais velhos já participaram ativamente. Convém aqui recordar que em 1401 Afonso, Conde de Barcelos e filho bastardo de D João I, casa com Beatriz, filha de D. Nuno Álvares Pereira e dá origem ao Ducado de Bragança que vai ter enorme protagonismo na vida nacional durante e depois do século XV.

A partir de 1415 desenvolve-se ainda mais a nossa Marinha, com todas as atividades que séculos mais tarde alguém chamou um “cluster”, que permitiu ter a frota mais poderosa e o maior conhecimento geográfico de toda a Europa e assim realizar os descobrimentos marítimos, que iniciaram a expansão europeia e a globalização deixando de herança à dinastia seguinte o enorme potencial de riqueza que esta não soube aproveitar da melhor forma.

Para se poder compreender corretamente este século XV em Portugal tem que se ter em conta que praticamente a partir de 1415 ficaram em confronto duas linhas de poder político a saber: a da Casa de Avis e a da Casa de Bragança que começa a aumentar a sua influência após a morte de D. Duarte e a regência do Infante D. Pedro que acaba por ser morto em 1449 na batalha de Alfarrobeira. Entretanto os descobrimentos continuam a progredir e em 1474 D. Afonso V entrega o poder marítimo ao Príncipe D. João que durante os vinte anos seguintes realiza o que ficou descrito no parágrafo anterior, mas mais do que isso provocou a “descoberta” por Colombo das Américas onde os espanhóis se fixaram e donde mais tarde obtiveram enormes riquezas, dando o tempo preciso para Vasco da Gama ser o primeiro europeu a ligar por via marítima a Europa à Índia.

Mas se em vez do Mestre de Avis tivesse ficado o Rei de Castela as consequências disso teriam sido enormes para Portugal e para todo o mundo, pois a burguesia teria desaparecido, como desapareceu em Espanha, Portugal seria uma região espanhola, a língua portuguesa desaparecia, não teria havido os descobrimentos como houve, e só haveria bastante mais tarde, afetando o próprio movimento do Renascimento, portanto com enorme influência na História do Mundo.

A explicação do apagamento do papel de Portugal na expansão europeia, pela sua extensão não cabe no âmbito deste texto, mas fica apenas a ideia que ele foi devido à mudança radical de gestão do País para o sistema reativo e extrativo praticado pelos Reis da Casa de Bragança, que se perpetuou até hoje, e aos interesses internacionais que aproveitaram a iniciativa portuguesa para seu proveito.

No entanto em Portugal é notória a apatia dos partidos políticos e das entidades privadas quanto ao facto de não se conseguir desenvolver a Economia do Mar sem se cuidar eficazmente de restruturar a Marinha (Armada e Marinhas de Comércio, Pescas e Recreio)  e dinamizar o acesso da população às atividades náuticas, como se fosse possível ter Economia do Mar sem Marinha à altura.                                                                                                                                                                                                            E isto acontece num País que, tendo tido a sua época mais brilhante e produtiva baseada na excelência da sua Marinha, continua a mostrar esse desprezo até hoje, pois se assim não fosse já teria sido criado um feriado no dia 6 de abril, a data em que foi empossado o Mestre de Avis como Rei D. João I.

Lisboa, 12 de março de 2018     

José Carlos Gonçalves Viana

 



publicado por JoseViana às 11:23
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