Desta vez não foi um leitor mas eu próprio a levantar esta questão indicada no título deste texto até porque, devo confessar-vos este desabafo, tendo iniciado esta luta pelas actividades marítimas desde 1974 tenho tido muito mais derrotas e desprezos vários que vitórias, como se pode ver pelo estado de atraso e de decadência delas no nosso País, começo a não ter grande paciência para os novos apóstolos da sua renovação que muito falam e pouco ou nada fazem de concreto mas têm o descaramento de se apresentarem como grandes inovadores sem sequer se darem ao trabalho de verificar se alguém já antes deles o fez.
Enquanto outros se esforçam por nada acontecer para protegerem iniciativas anteriores com receio da concorrência ou outros preconceitos, o que revela poucos conhecimentos desta realidade e bastante mesquinhez.
Mas para melhor esclarecimento do leitor vamos examinar, embora sucintamente como é óbvio num artigo deste tipo, os casos dos três municípios do Sotavento que indiquei no artigo anterior começando naturalmente por Tavira, depois por Castro Marim e finalmente por Vila Real de Santo António.
Tavira, tal como Portugal, deveu a sua grandeza no passado à actividade marítima e à sua produção agrícola e algumas indústrias ligadas a ambas e neste momento uma vez perdidas ou diminuídas essas actividades foi transformada nas últimas décadas num dormitório onde a maior actividade, o turismo, tem uma taxa de sazonalidade da ordem de 1,5 em 12 e é constituída pelo aberrante título de sol e praia que ainda por cima se caracteriza por baixo valor acrescentado para a sua população pois a maior parte das empresas que nele participam têm sede fora do concelho.
Para inverter esta situação é essencial o desenvolvimento de actividades que sejam passíveis de ser praticadas por pessoas individuais ou participando em empresas locais que sejam praticadas todo o ano, porque o clima e o mar assim o permitem e assim não só se resolver o problema da sazonalidade mas também o de passar a haver condições de atracão para residentes permanentes quer como reformados quer como profissionais de especialidades como por exemplo a informática.
Mas deve chamar-se a atenção que para seja possível ter a qualidade na prestação de serviços turísticos destes tipos há que cuidar da cultura específica a desenvolver na população o que obriga a criar condições para que todo e qualquer cidadão possa praticar todas elas ou pelo menos quase todas.
O que implica iniciar as crianças desde os primeiros anos de escolaridade no interesse pelos barcos, pelos animais que vivem no mar e nos campos da sua terra e não limitar os estudos aos possíveis turistas que nos poderão visitar.
Tavira tem um território onde já existem iniciativas muito interessantes e que são exemplos das enormes potencialidades existentes mas carecendo de alguns apoios operacionais que permitam a sua expansão de forma a constituírem um tecido coerente e complementar que dê ao Município a dimensão produtiva mais conveniente pois o mais importante é sempre manter o máximo nível de qualidade e não se voltar a cair no tipo de desenvolvimento como o de elevado número de fogos construídos em que a maior parte foi de baixa qualidade urbanística.
Mas quanto ao Mar as carências são ainda enormes: existem postos de atracação em número de algumas dezenas quando o potencial ronda os 2 000 distribuídos por Santa Luzia, 4 Águas e Forte de Santo António (ou do Rato), Cabanas e pelo Gilão junto ao centro da cidade onde há muito a fazer para dar vida, e receitas, todo o ano.
Ainda há mais iniciativas mas estas chegam para ilustrar o que se pretende expor.
Na verdade Tavira tem agora um Presidente do Município que está interessado nesta linha de desenvolvimento, o que de facto não aconteceu nos mandatos anteriores, e assim temos o início desta caminhada resolvido. É preciso agora que os outros intervenientes já apontados no artigo anterior se unam de forma a iniciar a concretização por fases dum plano de desenvolvimento global que deverá produzir resultados palpáveis em alguns meses.
E há quem esteja disposto a ajudar esta caminhada sem outra motivação além da vontade em conseguir colocar rapidamente Tavira no patamar de desenvolvimento sustentado e de elevada qualidade que pode e merece ter.
Quanto a Castro Marim e Vila Real também têm potencialidades de instalação de postos de amarração de idêntica capacidade, mas com características mais concentradas e praticamente sem influência na Ria Formosa mas não tenho conhecimento do interesse dos respectivos autarcas nestas iniciativas pelo que trataremos este assunto mais tarde.
Publicado no Postal em 2010-Set-23