Ninguém tem qualquer dúvida da importância e da urgência na criação de postos de trabalho, particularmente em atividades exportadoras.
Ora é exatamente na área do Turismo onde o potencial de criação rápida e com pouco investimento do Estado de postos de trabalho, continua a ser mal tratado para não dizer mesmo esquecido.
Para analisarmos melhor esta questão convém recordar a definição de Turismo que adotei quando há muitos anos me iniciei nesta atividade, ou seja em 1972-73 quando o navio Funchal foi transformado em navio de cruzeiros e que é a seguinte: conjunto de atividades económicas, sistémicas e globais, cuja função distribuição em lugar de levar o produto ao cliente trás este ao produto.
Daqui interessar definir o cliente alvo e obviamente o conceito de produto turístico que o consiga atrair.
Começando pelo cliente alvo a escala inicia-se por aqueles que maior valor acrescentado originam durante a sua estada, mas devendo ter em conta que as percentagens dos vários estratos do nível económico deles deve estar equilibrada com a estrutura da nossa oferta.
Um exemplo relacionado com a náutica de recreio é assim: seria excelente termos capacidade para receber megaiates mas também é essencial poder receber quem utiliza apenas embarcações de pequena dimensão para estuários.
Portanto a seguir devemos definir quais os produtos turísticos mais interessantes que podemos oferecer, podendo e devendo utilizar métodos de dinamização na procura de alternativas que conduzam a examinar um número muito vasto de atividades desde médicas, artísticas, contemplativas, gastronómicas, religiosas, políticas, científicas, desportivas, etc..
Durante muitos anos desenvolvemos um conceito que se revelou ser uma enorme tolice que foi o Sol e Praia, mas embora com algum atraso, nos tornámos num excelente fornecedor do produto Golfe e nestes últimos anos também a região do Douro tem dado provas de excelência na criação de produtos turísticos de elevado valor.
Mas quanto ao centro e ao sul do País já não se pode dizer o mesmo. Com efeito o potencial náutico em particular da região de Lisboa, mais exatamente do estuário e do próprio rio Tejo, do rio Sado, do Sotavento Algarvio e da barragem do Alqueva deve ser cotado ao nível de vários milhares de postos de trabalho.
No entanto os nossos responsáveis, quer sejam do Governo ou das corporações civis, não têm dado prova alguma da existência deste potencial, embora até já haja projetos desde há vários anos que não se desenvolveram.
Uma das razões parece ser a de que o Turismo depende de uma Secretaria de Estado e as atividades náuticas doutra Secretaria de Estado. Outra razão é a indiferença quando não mesmo algumas mesquinhices regionais dos órgãos dirigentes sejam eles corporativos ou autárquicos.
Dou um exemplo concreto: em 1997 foi apresentado ao Município do Barreiro um projeto de desenvolvimento náutico que criaria nele alguns milhares de postos de trabalho com um investimento muito baixo e gradual, portanto sem risco financeiro, mas até hoje nada aconteceu. Nem apareceu qualquer manifestação a reclamar esta decisão.
É claro que é essencial que toda a gente compreenda a necessidade de haver instalações de postos de amarração e de acesso ao mar de embarcações que permitam a grande número de cidadãos a prática de desportos náuticos, pois só assim poderemos ter os profissionais indispensáveis à prestação de serviços aos turistas com a qualidade correta.
Devo mesmo insistir num facto que tem sido desprezado pela nova vaga de interessados no mar que é a náutica de recreio ter dupla utilidade: primeira é o instrumento essencial para a formação da juventude no contacto com o mar e principalmente com a Marinha, porque o Mar sem Marinha, como nós estamos agora, não é mais que uma paisagem e uma saudade; segunda é um meio de criação de riqueza fundamental agora, aliás como sempre foi na nossa história.
Portugal sem Marinha é um país periférico, quando teve a melhor Marinha da Europa era central!
Como o Ministério e a Secretaria do Mar não tomam as decisões que permitirão finalmente sairmos, como dizia Camões desta apagada e vil tristeza, será possível os responsáveis pelo Turismo terem essa iniciativa?
Lisboa, 1 de Janeiro de 2014
José Carlos Gonçalves Viana