No último Expresso vinha um artigo intitulado “Economia do mar precisa de 160 mil trabalhadores” de acordo com um estudo realizado pela PWC e também li recentemente que a Armada tem falta de candidatos para os seus quadros de marinheiros.
Será que este problema é recente? Não é.
Para quem está há mais de quarenta anos a lutar pela recuperação da nossa Marinha, com o pouco sucesso que aquelas notícias mostram, a questão é mais profunda pois o desinteresse pelas atividades marítimas verificou-se logo a seguir à revolução de Abril de 74 em parte porque a Marinha Mercante era considerada colonialista porque tinha sido desenvolvida a partir de 1945 baseada no tráfego colonial e a náutica de recreio era considerada fascista porque estava conotada como atividade típica de ricos.
Além disto as condições do enquadramento legal e operacional da nossa Marinha Mercante era de tal forma penalizante que não era minimamente incentivador ao investimento e à operação.
A acrescentar a isto, como a maioria dos nossos historiadores é pouco versada em navegação, na História dos nossos descobrimentos a maioria da nossa população não apreendeu a importância da nossa Marinha (entendendo-se como o conjunto da Armada e das Marinhas de Comércio, de Pescas e de Recreio, esta só recentemente) no desenvolvimento do cidadão português que não existia antes de Afonso Henriques e que só ficou consolidado após D. João I ter iniciado o seu reinado e ter permitido realizar os descobrimentos marítimos que só foram possíveis porque Portugal era o país europeu com a melhor Marinha e o mais desenvolvido conhecimento geográfico e cartográfico.
Mas como falhámos a revolução industrial no século XIX deixámos de ter Marinha de Comércio e quase não tínhamos Armada, quando se deu a guerra de 39-45 tivemos grandes dificuldades no abastecimento de carvão de tal forma que em 45 foi decidido ter marinha de Comércio baseada nas Colónias, mas em 74 já tínhamos linhas como terceira bandeira e o Funchal a fazer cruzeiros na Europa e no Brasil.
Marinha de Pesca tínhamos a nacional, pois a do bacalhau estava fortemente prejudicada pela estruturação da pesca internacional, a precisar de ser reformulada com vista à futura entrada na CE o que acabou por nunca ter sido realizado por razões pouco claras o que prejudicou fortemente este setor.
Até à década de 50 havia muitas embarcações no Tejo, por exemplo, pois as populações ribeirinhas particularmente na margem sul não tinham outro meio de deslocação e assim haveria mais de 35000 pequenas embarcações além das maiores que ligavam os navios de carga aos cais e entre estes. Com a construção das pontes e das estradas desapareceram quase todas pois veio ao de cima que eram usadas por necessidade e não por recreio.
Entretanto foram construídas algumas marinas o que foi excelente mas o custo da sua utilização não pode ser baixo e portanto como em toda a zona de Lisboa não há quaisquer facilidades para quem tenha menos posses poder praticar náutica de recreio, a maioria dos nossos jovens não tem vivência nestas atividades. Aliás basta olhar para o vazio do nosso mar da Palha para se perceber a tolice dos nossos responsáveis por esta situação e que são vários, pois entre nós nunca há um único responsável seja pelo que for pois assim às vezes quando tudo calha bem lá sai uma medalha mas quando calha mal nada acontece.
Aliás também o Sotavento Algarvio que tem enorme potencial náutico de recreio nunca se desenvolveu porque as decisões são tomadas no Barlavento onde quem manda não quer concorrência.
E note-se que recreio não é apenas passear ao domingo mas tem elevada capacidade de produzir riqueza em turismo de alto valor acrescentado como é exemplo a Flórida mas que os nossos responsáveis pelo Turismo parece ainda não conhecerem.
Assim com este panorama de desinteresse transversal e generalizado pela Marinha como ficar espantado com a falta de candidatos a marinheiro?
Lisboa, 06 de fevereiro de 2018
José Carlos Gonçalves Viana