No Expresso de 11 de Outubro vem uma entrevista com o Presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) que mereceu este meu comentário pois reflete a continuação de um grande equívoco do nosso turismo, e que existe pelo menos desde o momento em que me iniciei nas lides turísticas ou seja em 1973, que consiste em confundir turismo com hotelaria.
Na verdade a hotelaria é essencial para um turismo próspero mas este tem outras componentes igualmente essenciais e que continuam a ser esquecidas ou menos bem tratadas.
Para que os leitores menos especializados neste assunto possam entender este texto convém recordar a definição de turismo que perfilho e que é a seguinte: atividade económica sistémica e global em que o produto vendido em vez de ser enviado ao cliente é fornecido quando este o vem receber.
Daqui se dever definir em que consiste o produto turístico pois é este que tem que motivar o cliente a adquiri-lo e é o seu nível que define também o respetivo tipo desse cliente e portanto qual a estratégia para o motivar.
Durante muitos anos desenvolveu-se o turismo do sol e praia, que se revelou uma tolice tremenda com enormes taxas de sazonalidade, uma elevada percentagem de turistas de baixo nível económico e que deu origem ao desenvolvimento de imobiliário de baixa qualidade ambiental e de economia pois o cliente a privilegiar será aquele que maior valor acrescentado proporciona e que não se limita aos banhos de mar.
Ultimamente verifica-se ter havido francas melhorias na qualidade do nosso produto turístico como foi o desenvolvimento do golfe e de empreendimentos mais apelativos mas ainda há muito a fazer particularmente numa área de atividade em que Portugal tem grande potencial mas que quer o Estado, seja ele o Governo ou as Autarquias, quer as Corporações interessadas, continuam paradas embora com isso estejam a protelar a criação de alguns milhares de postos de trabalho a curto prazo e a comprometer o desenvolvimento do País a longo prazo.
Refiro-me à Marinha de Recreio que por um lado ter esse potencial turístico desaproveitado, particularmente no estuário do Tejo e no Sotavento Algarvio e por outro o potencial educativo pois não havendo uma percentagem elevada de praticantes náuticos na população jamais poderemos restaurar a nossa Marinha e sem Marinha seremos sempre periféricos e dependentes, como a História ensina a quem a conhece.
Portanto resta-nos esperar que os responsáveis pelas decisões necessárias as tomem e as realizem em vez de proliferarem os colóquios e as reuniões enquanto quase nada do que é essencial decidir acontece, mas os que não têm trabalho e os que estão ainda a estudar sem esperança de não ter que emigrar deveriam estar presentes no seu pensamento.
E se algum deles disser que tem a sua consciência tranquila o único comentário a fazer é uma máxima antiga que dizia ter uma consciência tranquila quase sempre o resultado de ter uma memória fraca.
Lisboa, 12 de Outubro de 2014
José Carlos Gonçalves Viana